
FERNANDO EICHENBERG – REVISTA ELA / O GLOBO
Não estava nos planos de Patti Smith escrever um novo livro autobiográfico. Mas, certa noite, sonhou que um entregador batia a sua porta com um pequeno pacote. Era um livro branco, enrolado em um fita branca, ilustrado por fotografias no estilo de Irving Penn (1917-2009), e que contava sua vida como um fluxo. Ela despertou com as mãos abertas como se estivesse segurando o objeto, de tão reais que haviam sido seus devaneios noturnos. Supersticiosa, se viu levada a seguir os ditames de seu subconsciente. O resultado é Pão dos anjos, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras, em que a precursora do punk rock e autora do cult e premiado Só garotos mergulha em memórias de sua infância pós-Segunda Guerra Mundial na Pensilvânia e sul de Nova Jersey até períodos de sua vida adulta, com direito a um epílogo de prosa poética em tom de transe confessional.
Patti Smith não se abstém de detalhar perdas e episódios difíceis de sua vida, como o da filha que teve aos 20 anos de idade, cedeu para adoção, e que décadas depois conseguiu encontrar e estabelecer uma relação. Não faltam relatos íntimos sobre os desaparecimentos prematuros de seu querido irmão Todd, de seu inseparável companheiro das artes Robert Mapplethorpe ou de seu amado marido Fred Sonic Smith. Nem detalhes de como descobriu, aos 70 anos, que seu pai não era seu genitor biológico, o qual morreu aos 52 anos e ela nunca conheceu.
Às vésperas de completar 80 anos, e ainda se recuperando da turnê internacional comemorativa do cinquentenário de seu emblemático álbum Horses, Patti Smith assume a passagem do tempo, e embora confesse ter vivido um grave momento de descrença, afirma ter retomado a confiança no humano e a vontade de viver. Ela se define como uma escritora, uma humanista e uma lutadora — do seu jeito peculiar. Sua receita de resistência aos turbulentos tempos atuais é minimalista: “Seja bom. Isso, por si só, é uma forma de ativismo”. E após uma hora e meia de entrevista, ainda sobrou disposição para o bom-humor: “Adoraria continuar essa conversa com você no Café de Flore, em Paris. Não sei como isso aconteceu, mas já somos velhos amigos. Mas não se preocupe, você não é meu tipo (risos). Mas você paga o café!”.






























