
FERNANDO EICHENBERG / LOS ANGELES
Quando era correspondente de O Globo em Washignton D.C., nos EUA, certo dia peguei um avião até Los Angeles para entrevistar o arquiteto Frank Gehry em seu amplo estúdio na cidade americana. A nossa conversa, reproduzida aqui abaixo, foi publicada no jornal e depois no segundo volume do meu livro de entrevistas “Entre Aspas 2”, da editora L&PM. Frank Gehry nos deixou neste dezembro, aos 96 anos. Guardo boas lembranças de nosso encontro, ele então com 81 anos de idade.

LOS ANGELES – Aos 14 anos de idade, encerrado em seu quarto com um kit de experiências químicas que havia ganhado de seus pais, o jovem Frank Gehry testou sua capacidade científica de inventor. Com geradores de hidrogênio e de oxigênio comunicados por dois tubos a um recipiente de vidro, tentou simplesmente criar água. O experimento, no entanto, resultou em um desastre. “Deu uma explosão e foi tudo para o ar. Fiquei com cacos de vidro no meu corpo. Foi perigoso o que fiz”, me contou, rindo, então aos 81 anos.
O adolescente malsucedido na fabricação de líquidos se tornou um gênio na criação de inusitadas formas sólidas. Ao longo dos anos, Frank Gehry, canadense naturalizado americano, alcançou a reputação de um dos maiores talentos da arquitetura contemporânea. Frequentemente é citado como o mais aclamado arquiteto americano desde Frank Lloyd Wright. Seu nome é de imediato associado ao Museu Guggenheim instalado às margens do rio Nervión, em Bilbao, na Espanha: uma enorme estrutura-escultura de blocos ortogonais em pedras calcárias, moldada por curvas em escamas retorcidas de titânio luminoso e lâminas de vidro. Inaugurada em 1997, a original construção catapultou o arquiteto ao estrelato e revitalizou a cidade industrial catalã. O museu deflagrou o chamado “efeito Bilbao”, e despertou a inveja e o interesse de outras cidades pelo mundo, que passaram a aspirar a semelhante consagração. “Quando vi o museu pronto, disse: ‘Meu Deus, o que eu fui fazer para essas pessoas?’”, confessou certa vez. Por conta da notoriedade proporcionada pelo museu espanhol, entre as mais de 130 demandas recebidas por projetos similares, também houve uma sondagem de brasileiros.
Sua projeção internacional foi confirmada pela singularidade arquitetônica do Walt Disney Concert Hall, edificado em Los Angeles, em 2003, e considerado uma obra-prima visual e acústica. Seu portfólio revela ainda preciosidades como a Casa Dançante, em Praga; o Centro Stata, no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), ou a Torre Beekman, em Nova York. Sua infinita curiosidade o levou também a explorar o design de móveis ou de coleções de joias para a grife Tiffany.
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