
FERNANDO EICHENBERG – O GLOBO/ELA
PARIS – Aos 97 anos, Alejandro Jodorowski diz que a finalidade de toda uma vida é a de morrermos felizes. “Quem não deseja isso?”, indaga, acomodado na poltrona carmim de seu apartamento parisiense. “Ninguém sabe o que é a vida, morte, o que são as coisas, não se sabe nada”, divaga em pausada voz. E conclui em tom jovial: “Mas não é hora ainda para morrer”. O célebre artista franco-chileno muito já aprontou em sua longeva existência, e mantém fôlego para novas aventuras. Descrever o personagem exige traçar caminhos diversos. Jodorowski é cineasta, ator, performer, romancista, roteirista de filmes e de HQs, dramaturgo, poeta, mímico, marionetista, pensador místico e espiritual e teórico da “psicomagia” — método de desenvolvimento da imaginação e da criatividade com poder terapêutico. É também “mestre do tarô”, cujas disputadas leituras gratuitas, realizadas todas as quartas-feiras num bar próximo à sua casa, atraíam dezenas de curiosos e aficionados de todas as nacionalidades. O tarô — “sistema de autodescoberta” em sua abordagem junguiana —, ao qual foi introduzido pelo surrealista francês André Breton, é um “alfabeto da alma”, define. Epítetos não faltam para tentar classificá-lo: “gênio visionário”, “vanguardista underground” ou “pai espiritual do blockbuster de ficção científica”. Ele é autor, em parceria com o francês Moebius, da série cult de HQ “O Incal”, bem como do megaprojeto inacabado do filme “Duna”, uma adaptação de 14 horas de duração do livro homônimo do escritor de SF americano Frank Herbert. Sua utopia cinematográfica — que previa um elenco confirmado de nomes como Salvador Dalí, Orson Welles e Mick Jagger, com trilha sonora de Pink Floyd —, não convenceu financeiramente nenhum grande estúdio de Hollywood e acabou esquecida na gaveta. O storyboard do filme, tornado objeto de coleção — um exemplar foi arrematado por mais de € 2,6 milhões (R$ 15,6 milhões) em um leilão da Christie’s —, e seu imaginário futurista, no entanto, influenciaram clássicos como “Star Wars”, “Alien”, “Blade Runner” e “Matrix”. Outros filmes, esses exibidos nas telas, como o fenômeno “El Topo”, um western surrealista elogiado pelo ex-Beatle John Lennon, e o épico “A montanha sagrada”, odisseia psicodélica misturando sátira religiosa, humor negro e busca espiritual, se tornaram referências estéticas do cinema de vanguarda.
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