13 de novembro: os efeitos colaterais no debate político francês

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Soldados franceses em vígilia diante da Torre Eiffel iluminada com as cores da bandeira nacional. ©Joel Saget/AFP

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS -Os franceses prestam homenagens neste domingo em memória das 130 vítimas dos atentados cometidos há exatamente um ano, em 13 de novembro de 2015, na capital francesa, um acontecimento cujos reflexos ainda são sentidos. Os massacres de Paris, somados aos ataques na redação do jornal “Charlie Hebdo” e na orla de Nice, provocaram um profundo trauma na sociedade francesa. A onda de choque da violência terrorista promovida pelo Estado Islâmico (EI), entre tantos efeitos colaterais, influiu também no debate político e nas perspectivas para as eleições presidenciais no país, marcadas para abril e maio de 2017. Continue lendo 13 de novembro: os efeitos colaterais no debate político francês

As mil vidas de Belmondo

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FERNANDO EICHENBERG

PARIS – “Mil vidas valem mais do que uma”. O título não poderia ser mais apropriado para o livro de memórias da lenda do cinema francês Jean-Paul Belmondo. Aos 83 anos e mais de 80 longa-metragens no currículo, o ator, ícone nos anos 1960 do “charme viril à la française” e estrela do cult “Acossado” , decidiu contar pela primeira vez suas inúmeras vidas em uma autobiografia (ed. Fayard, 320 págs.), lançada na semana passada na França. Simultaneamente, saiu do prelo, pela mesma editora, um álbum de fotos de mais trezentas páginas com imagens retiradas de seu arquivo privado. Versátil nas telas, Belmondo diz que apreciava tanto protagonizar perigosas cenas de ação sem recorrer a dublês, como em “O Homem do Rio” ou  “O Magnífico”, quando chegou a quebrar o tornozelo, como atuar no improviso, sem texto, para o cineasta Jean-Luc Godard, o enfant terrible da Nouvelle Vague. Continue lendo As mil vidas de Belmondo

Ícones da arte moderna em uma exposição inédita

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Rupe Rupe (A colheita de frutas), de Paul Gauguin, uma das preciosidades adquiridas por Sergueï Chtchoukine exibidas em Paris. ©Gilles Bassignac/Divergence/JDD

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – Entre os programas imperdíveis atualmente em Paris, está uma visita à Fundação Louis Vuitton. Não para ver/rever seu prédio futurista, o elogiado e também controverso projeto arquitetônico de Frank Gehry, mas para extasiar-se com a mostra atualmente em cartaz em seus espaços: “Ícones da arte moderna – a coleção Chtchoukine”. Continue lendo Ícones da arte moderna em uma exposição inédita

Uma conversa em Paris com Michel Houellebecq

Oct. 26, 2015 - Paris, France (France - HOUELLEBECQ Michel en STUDIO Paris 2014 - Date: 20141215 ©Philippe Matsas/Opale/Leemage (Credit Image: © Philippe Matsas/Leemage via ZUMA Press)
© Philippe Matsas/Leemage via Zuma Press

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – O escritor francês Michel Houellebecq será a atração desta noite (07/11) do ciclo “Fronteiras do Pensamento”, às 19h45 no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre. Sob proteção policial desde os atentados de janeiro de 2015 na França, ele estava vigiado por dois agentes quando nos encontramos quatro meses depois, para uma entrevista em uma sala do primeiro andar do prédio da editora Flammarion, na praça Odéon, em Paris, na primeira semana de  maio. Continue lendo Uma conversa em Paris com Michel Houellebecq

Luc Ferry: “O debate americano é desastroso”

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FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – O filósofo francês Luc Ferry, que já morou e lecionou nos Estados Unidos, não economiza adjetivos depreciativos ao abordar as eleições presidenciais no país. Embora defina Hillary Clinton como integrante de uma “dinastia elitista e rica”, incapaz de provocar entusiasmo, acredita que uma ida de Donald Trump à Casa Branca ridicularizaria os EUA no mundo. Em caso contrário, adverte: mesmo derrotado, Trump deixará marcas com a popularidade alcançada na campanha presidencial. Continue lendo Luc Ferry: “O debate americano é desastroso”

Oscar, born to be Wilde

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Oscar Wilde fotografado por Napoleon Sarony, em 1882. © Biblioteca do Congresso dos EUA

FERNANDO EICHENBERG/ZERO HORA

PARIS – “A melhor maneira de livrar-se de uma tentação é ceder a ela”. “Viver é a coisa mais rara do mundo; a maioria das pessoas se contenta em existir”. “Há duas tragédias na vida: uma é satisfazer seus desejos, e a outra é não satisfazê-los”. “Dizer que um livro é moral ou imoral não tem sentido; um livro é bem ou mal escrito”. “Democracia: a opressão do povo, pelo povo e para o povo”.  “Quando os deuses querem nos punir, eles atendem as nossas preces”. Quem já não leu ou ouviu uma destas máximas? As espirituosas sentenças e aforismos se reproduzem às dezenas pela pena do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), de quem se diz que hoje seria um incansável fraseador do twitter de 140 caracteres. O dândi provocador, esteta, crítico de arte, dramaturgo e autor de poemas, contos, ensaios e de um romance é atualmente tema de uma inédita exposição no Petit Palais, em Paris. Continue lendo Oscar, born to be Wilde

Christiane Jatahy: primeiro nome brasileiro a dirigir um espetáculo na Comédie-Française

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Christiane Jatahy começa neste novembro os ensaios para a “A Regra do Jogo”, na Comédie-Française. ©Marcelo Lipiani

FERNANDO EICHENBERG / FOLHA DE SÃO PAULO

PARIS – Christiane Jatahy observa os despidos muros de sua provisória morada em Paris e confidencia, inconformada: “Preciso continuar construindo minhas estantes. Sempre tive um prazer enorme de ficar admirando uma biblioteca, adoro a ideia de paredes repletas de livros, é algo que me apazigua”. Nascida em 1968, ela viveu a primeira parte de sua infância carioca de forma bastante solitária, imersa em numerosas leituras que estimularam sua imaginação e forjaram sua “sensibilização e o olhar para o mundo”. No segundo ato, até os 14 anos, a família avolumou, e o aspecto coletivo se afirmou pelo teatro. Com tios, primos e outros parentes, encenava peças para serem apresentadas nas celebrações familiares, em aniversários ou festejos natalinos. Na juventude, veio a descoberta da filosofia e do cinema, com sessões ininterruptas em cineclubes das 14h às 22h. Adulta, passou a criar no Brasil seus próprios espaços cênicos, mas, principalmente, a quebrar barreiras. Hoje, aos 48 anos, impõe-se com seus singulares espetáculos teatrais nos palcos da Europa, e se prepara para conquistar os Estados Unidos. Continue lendo Christiane Jatahy: primeiro nome brasileiro a dirigir um espetáculo na Comédie-Française

Richard Avedon e a França: uma história de amor e de imagens

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A atriz Catherine Deneuve fotografada por Richard Avedon, em 1968. © The Richard Avedon Foundation

FERNANDO EICHENBERG

PARIS –Foi por terror que me tornei um artista. Tudo o que quando criança, e mesmo adulto, não conseguia controlar – o tempo, o movimento, os outros, seus apetites, os meus -, podia captar por meio da minha máquina fotográfica. Esta caixa preta se tornou minha cúmplice, minha co-inspiradora”. O célebre fotógrafo americano Richard Avedon (1923-2004) ganhou de presente sua primeira Rolleiflex aos dez anos de idade, e fez da fotografia sua arte e sua profissão. A Biblioteca Nacional da França (Bnf) inaugurou na semana passada uma bela exposição sobre a intensa relação do artista com a França, com cerca de 200 imagens. Continue lendo Richard Avedon e a França: uma história de amor e de imagens

Louvre renovado prepara novas exposições e enfrenta a ameaça terrorista na França

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Jean-Luc Martinez, presidente do Louvre: “Sou um daqueles que acreditam que o belo pode salvar o mundo”. ©Museu do Louvre/Florence Brochoire

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS — O Museu do Louvre, o primeiro do mundo em termos de frequência, deverá perder até cerca de 2 milhões de visitantes este ano, o equivalente a mais de 20% do total de seu atual público. A queda, estimada pelo presidente da célebre instituição francesa, Jean-Luc Martinez, 52 anos, é creditada principalmente aos efeitos colaterais dos recentes atentados e da constante ameaça terrorista na França. Para conter este decréscimo, além de reforçar a segurança local, o museu intensificou as ações de divulgação de sua imagem no exterior. Foi lançado, inclusive, o projeto de uma grande exposição no Rio e em São Paulo durante os últimos Jogos Olímpicos, mas, apesar dos esforços, sem alcançar concretização. Os brasileiros são, hoje, a quarta nacionalidade estrangeira de maior frequentação do museu, atrás dos italianos, chineses e, no topo, os americanos. A média de tempo de visita do público brasileiro, de 3h10min de duração, está, inclusive, acima da média geral, de 2h42min. Continue lendo Louvre renovado prepara novas exposições e enfrenta a ameaça terrorista na França

Mitterrand: cartas para Anne, o amor clandestino

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Foto de François Mitterrand feita por Anne Pingeot, em Massevaques, na região de Lozère, em 1978. ©Anne Pingeot

FERNANDO EICHENBERG/ ZERO HORA

PARIS –Amo minhas mãos que acariciaram teu corpo, amo meus lábios que beberam em ti. Amo teu corpo, tua alegria que se derrama em mim quando sinto tua boca, a possessão que me queima de todos os fogos do mundo, o jorro de meu sangue dentro de ti, teu prazer que surge do vulcão de nossos corpos, labaredas no espaço, abrasamento”. A incandescente e passional declaração é trecho de uma carta escrita em julho de 1970, de François para Anne. Ele é François Mitterrand (1916-1996), presidente da França de 1981 a 1995. Ela é Anne Pingeot, seu amor clandestino por mais de 30 anos. O grande amor de sua vida. Continue lendo Mitterrand: cartas para Anne, o amor clandestino

Hergé, criador de Tintim, invade o Grand Palais

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Retrato de Hergé feito pelo artista Andy Warhol, em 1977 © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc. / ADAGP, Paris 2016 – © Jean–Pol Stercq / ADAGP, Paris 2016.

FERNANDO EICHENBERG / ZERO HORA

PARIS – Exatos trinta anos depois que o italiano Hugo Pratt, criador do memorável Corto Maltese, foi acolhido com uma exposição no prestigioso Grand Palais, a história em quadrinhos (HQ) é novamente celebrada nos nobres espaços do museu parisiense. Desta vez, o homenageado é o belga Hergé (1907-1983), genitor em 1929 do intrépido repórter aventureiro Tintim e seu inseparável cão Milu, além do Capitão Haddock, da cantora de ópera Bianca Castafiore, do professor Girassol e dos detetives Dupond e Dupont, protagonistas de um total de 24 álbuns de sucesso planetário. Continue lendo Hergé, criador de Tintim, invade o Grand Palais

Os sonhos lúcidos do surrealista René Magritte

René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d'Images, Adagp, Paris, 2016
René Magritte, Décalcomanie, 1966, © Photothèque R. Magritte / Banque d’Images, Adagp, Paris, 2016

FERNANDO EICHENBERG/ ZERO HORA

PARIS – “Abusa-se da palavra ‘sonho’ em relação a minha pintura”, queixou-se certa vez o artista belga René Magritte (1898-1967), considerado como um dos expoentes do surrealismo. O célebre pintor e suas nuvens, chapéus, cortinas, maçãs, velas, cachimbos, corpos fragmentados, personagens ou pássaros – em suas mais variadas combinações – invadiram os espaços do Centro Pompidou, em uma ambiciosa exposição parisiense neste início de outono europeu. Magritte, a traição das imagens reúne uma centena de telas, desenhos e documentos de arquivos, sem, no entanto, se reivindicar como retrospectiva do pintor. Continue lendo Os sonhos lúcidos do surrealista René Magritte

80 anos: um joyeux anniversaire, Verissimo

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Luis Fernando Verissimo escrevendo em seu apartamento em Paris. ©Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG/ ZERO HORA

PARIS – Quando ainda vivia em Porto Alegre, certa vez recebi Luis Fernando Verissimo e sua inseparável Lúcia para jantar em minha casa. Na época, morava num apartamento na rua Filadélfia, em um terceiro andar sem elevador. Ao me mudar para Paris, meu status subiu: desembarquei em um sexto andar sem elevador. Na calçada, diante da porta de meu prédio parisiense, Verissimo olhou para o alto, colocou a mão sobre meu ombro, e ainda com a mirada nos céus, confidenciou: “Acho que a minha amizade contigo só vai até o terceiro andar”. Continue lendo 80 anos: um joyeux anniversaire, Verissimo

Monique Lévi-Strauss: 90 anos de vida e muitas histórias para contar

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Monique Lévi-Strauss fotografada pelas lentes de Fe Pinheiro (Folhapress).

FERNANDO EICHENBERG / SERAFINA – FOLHA DE S. PAULO

PARIS – A sala principal do apartamento no prédio de número 2 da rua des Marronniers é iluminada por uma ampla janela situada na diagonal de uma longa e estreita mesa de madeira bruta, de tonalidade escura. “Ali meu marido trabalhava todos os dias”, aponta a anfitriã, acomodada no canto do sofá, em uma cinzenta manhã parisiense. “Você ouve o silêncio?”, indaga, poeticamente. “Aqui estamos num bunker – explica ela. É uma peça fortificada. Meu marido fez construir paredes reforçadas por tudo, para ter silêncio, algo imprescindível para ele”. Seu marido, citação constante em suas frases, era o célebre pensador, antropólogo e etnólogo francês Claude Lévi-Strauss, falecido em 2009 neste mesmo endereço, aos 100 anos de idade. Monique Lévi-Strauss, 90 anos – nascida em 5 de março de 1926, em Paris -, recebeu a Serafina em sua residência para conversar sobre um livro que ela escreveu: Une enfance dans la gueule du loup (Uma infância na boca do lobo, ed. Seuil), relato autobiográfico de uma experiência incomum de sua pré-juventude, na Segunda Guerra Mundial, elogiado pela crítica francesa. Mas não deixou de evocar seu cotidiano e sua história de amor com o autor de “Tristes Trópicos” (1955) – considerada como uma das obras capitais do século XX -, e também um dos fundadores da Universidade de São Paulo (USP). “Não foi amor à primeira vista!”, garante ela, com humor e jeito adolescente, exibindo uma vitalidade que desafia sua longevidade. Continue lendo Monique Lévi-Strauss: 90 anos de vida e muitas histórias para contar

Maria Ribeiro e Matilde Campilho: uma conversa entre a cronista e a poeta

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A poeta portuguesa Matilde Campilho (à esquerda) e a cronista e atriz carioca Maria Ribeiro no encontro em Lisboa. © Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

LISBOA – Uma é carioca, atriz, documentarista e cronista, 40 anos de vida, assume sua vaidade, as redes sociais, tem medo de avião, e gosta de inverno. A outra é portuguesa, poeta, 33 anos, evita a exposição, não tem Instagram, é andarilha, e gosta de verão. A primeira, Maria Ribeiro, viajou do Rio a Lisboa para o lançamento da edição portuguesa de sua compilação de crônicas, “Trinta e Oito e Meio” (lançado no Brasil pela ed. Língua Geral), e finaliza o livro “40 Cartas e um Email que Nunca Mandei” (ed. Planeta), que será lançado no início do ano que vem. A segunda, Matilde Campilho, vive hoje em Lisboa após uma temporada de três anos no Rio – de 2010 a 2013 -, e está na quinta edição lusitana de sua primeira obra de poemas, “Jóquei” (ed. Tinta da China; no Brasil, o livro foi lançado pela ed. 34). Além das diferenças de temperamento, as duas mantêm uma nítida convergência de interesse: a escrita. O Globo reuniu as duas escritoras em Lisboa para uma descontraída conversa nestes tempos de crescentes intercâmbios literários luso-brasileiros. Prova disso é que elas voltarão a se encontrar em novembro, quando Matilde Campilho mediará na cidade do Porto o debate do projeto “Você é o que lê”, que além de Maria Ribeiro conta ainda com Xico Sá e Gregório Duvivier. Continue lendo Maria Ribeiro e Matilde Campilho: uma conversa entre a cronista e a poeta

Renaud Lavillenie: após as vaias, os aplausos em casa

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FERNANDO EICHENBERG/ O GLOBO

PARIS – Ovações, aplausos e um salto de 5m93 que lhe garantiu o primeiro lugar na etapa da Liga Diamante de Atletismo realizada no sábado à noite em Paris. Era tudo o que o atleta da casa, o francês Renaud Lavillenie, desejava para esquecer as vaias do público brasileiro e o segundo lugar do pódio na prova de salto com vara nos Jogos Olímpicos do Rio. Celebrado efusivamente pelas tribunas do Stade de France desde que seu nome foi anunciado ao microfone ao adentrar no estádio, Lavillenie superou o americano Sam Kendricks e o checo Jan Kudlicka. O brasileiro Thiago Braz, campeão olímpico no Brasil (6m03) não competiu na capital francesa, mas reencontrará o rival francês no meeting de Zurique, em 1° de setembro. Continue lendo Renaud Lavillenie: após as vaias, os aplausos em casa

o fenômeno da Rentrée littéraire na frança

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A rentrée littéraire na livraria l’Écume des Pages. ©Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG/ ZERO HORA

PARIS – O mês de setembro assinala o começo do outono na Europa. É o verdadeiro início do ano no continente depois das festejadas férias de verão. Janeiro é januarius, mês do deus Janus, representado por duas faces coladas e opostas, uma mirando para o passado, e a outra, na direção do futuro. Mas é no nono mês do calendário que as tradicionais agendas vendem como baguette quente, e as revistas exibem os mais previsíveis artigos sobre “as resoluções para o novo ano”. Depois do dolce far niente de agosto, o estresse logo se instala nos subterrâneos do metrô, novamente tumultuados, e nos semblantes de motoristas impacientes em meio aos frequentes engarrafamentos. Os ministros da República retornam ao debate político bronzeados pelo sol estival, as crianças se alvoroçam nos portões das escolas na volta às aulas, e a vida cotidiana, cultural e gastronômica retoma seu curso, já com as matizes de outono. O setembro francês é o março brasileiro. É o ano que (re)começa. Continue lendo o fenômeno da Rentrée littéraire na frança

Samar Yazbek: o exílio e a vitória da morte na Síria

SAMAR YAZBEK / FOTOGRAF MUHSIN AKGUN
A escritora síria exilada em Paris Samar Yazbek. ©Muhsin Akgun

FERNANDO EICHENBERG/ FOLHA DE S. PAULO

PARIS – Certo dia, sentada em um café na praça da Bastilha, Samar Yazbek teve um sobressalto de pânico provocado pelo súbito pouso de um pássaro em seu joelho. Um reflexo de tempos passados. Antes de se exilar na capital francesa, em junho de 2011, o terror dos céus vinha dos disparos de atiradores aninhados no alto dos prédios e de bombas lançadas pelas forças do ditador Bashar al-Assad, no sangrento conflito sírio que se estende por mais de cinco anos. Escritora, intelectual, democrata e alauita (ramificação do islamismo xiita, mesma vertente do clã Assad), no início de 2011 Yazbek não hesitou em aderir aos protestos contra os desmandos do governo de Damasco, no rastro da Primavera Árabe. Naquela época, escreveu um texto que viralizou nas redes sociais: “Esperando minha morte”. Detida, foi levada para a prisão onde opositores do regime eram torturados. Interrogada cinco vezes pela polícia secreta síria, foi libertada em algumas semanas, “após alguns tapas”, mas acusada de “traição”. Sob constante ameaça de morte, conseguiu fugir para a França com a filha.

“Foi catastrófico para uma mulher como eu, liberal, e da comunidade alauita. Minha permanência lá era mesmo uma ameaça para quem me acolhia. Outras mulheres me encorajaram a deixar o país e poder escrever sobre tudo o que se passa na Síria”, conta ela à Folha num café de Paris, com o auxílio de um tradutor árabe, pois seu francês ainda é precário.

INCURSÕES

Mesmo no exílio, Yazbek atravessou clandestinamente a fronteira síria por três vezes, entre fevereiro de 2012 e agosto de 2013, para testemunhar o sofrimento em Idlib e Aleppo, zonas de conflito no norte do país. Nas duas primeiras vezes, permaneceu por dez dias cada, e na última, um mês. Em 2013, um ataque provocado pela explosão de um barril de pólvora quase a matou.

As experiências originaram o livro “Les Portes du Néant” (As portas do nada), recém-lançado na França. É uma narrativa explícita do inferno cotidiano da guerra civil -num acúmulo de tragédias, estupros, torturas, execuções, cadáveres e mutilações-, que adotou contornos religiosos com a entrada em cena do Estado Islâmico (EI). “Há apenas um vencedor na Síria: a morte. Só se fala dela, em toda a parte”, escreve em seu relato.

Laureada em 2012 com o prêmio internacional PEN/Pinter para “escritores de coragem” -pela obra “Uma Mulher no Fogo Cruzado: diários da revolução síria”-, Yazbek acredita que, por um lado, sua escrita é “um ato existencial de resistência à morte”. Para ela, o destino de Assad deve ser o banco dos réus no Tribunal Penal Internacional, em Haia: “Ele torturou e matou o povo sírio, espero que seja julgado por crimes contra humanidade. Tenta manipular para dizer ao mundo que há um inimigo mais perigoso do que ele, o EI”.

Yazbek também critica a comunidade internacional. “Países como EUA, Rússia e Irã não intervieram realmente porque têm seus próprios interesses. A situação piorou tanto que hoje se assiste a todas essas mortes no mar Mediterrâneo. Houve uma real diáspora no mundo. E foi só quando os países europeus foram realmente atingidos, com a chegada em massa dos refugiados, que se começou a buscar uma solução.”

REBELDIA

Rebelde por natureza, aos 16 anos a jovem Yazbek deixou sua cidade de Latakia, na costa síria, para se instalar solitária em Damasco e estudar literatura, o que numa sociedade árabe já pode ser considerado como uma “atitude revolucionária”, diz ela. Em 2012, criou a ONG “Women Now for Development”, para ajudar as mulheres sírias -segundo ela, “as primeiras vítimas da guerra”, junto com a crianças.

Recentemente, Yazbek começou a aprender o francês, idioma de seu novo país de adoção, o que evitava antes por razões subconscientes: “Tenho a impressão de que, ao me aproximar do francês, é como se fosse perder minha língua materna, me separar de algo de mim mesma. Mas, para me sentir bem aqui, terei de aprender.”

Amante das letras de José Saramago, Charles Baudelaire, Virginia Woolf ou Naguib Mahfouz, ela já disse que o estado das mulheres sírias, na luta contra o “extremismo religioso, o sistema patriarcal e o despotismo de Bashar”, se assemelha ao conto “A Colônia Penal”, de Franz Kafka: “Somos punidas por todo o lado”. Mas as similaridades param por aí: “Depois de todas as minhas leituras e do que já vi, penso que não há situação comparável ao sofrimento de hoje na Síria.” 

Michel Butor (1926-2016): “célebre desconhecido”

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Michel Butor, escritor, poeta e ensaísta. ©Ed Alcock/Reprodução

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – Michel Butor vivia recluso em meio a suas paredes abarrotadas de livros em sua casa na localidade francesa de Lucinges, próxima à frontreira suíça. O lar foi batizado de “À l’écart” (à parte), um pouco à maneira de sua presença na paisagem literária e intelectual francesa. Inclassificável, o prolixo escritor, pensador, ensaísta, poeta e viajante morreu nesta quarta-feira, aos 89 anos, deixando um vasta e eclética obra. É ele um dos principais expoentes do movimento literário “Nouveu roman” – com “La Modification” (1957) – , ao lado de nomes como Alain Robbe-Grillet, Claude Simon e Nathalie Sarraute. Mas é também um poeta assumido e autor de numerosos ensaios sobre literatura, arte, pintura, música, fotografia ou viagens. “Se diz seguido de mim que sou um célebre desconhecido”, comentou certa vez. Continue lendo Michel Butor (1926-2016): “célebre desconhecido”

Biquíni x burkini

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Charge do cartunista belga Kroll. Em 1966, o policial francês ordena: “Vista-se, madame, isso é proibido!”. E em 2016: “Dispa-se, madame, isso é proibido!“.

FERNANDO EICHENBERG/ ZERO HORA

PARIS – O verão em que a França celebra os 70 anos da criação do biquíni ficará marcado por um outro traje de banho, que poderia ser definido como sua antítese. Neste final da temporada estival europeia, todas as atenções se voltaram para o burkini, vestuário de praia islâmico que deixa visível apenas o rosto, as mãos e os pés, e alvo de polêmica nos últimos dias por sua interdição decretada em várias praias francesas. O biquíni, como se sabe, fez sua primeira aparição na capital francesa em 5 de julho de 1946, na piscina Molitor, pelas mãos de Louis Réard – engenheiro mecânico que administrava a loja de lingeries de sua mãe –, e vestido pela dançarina Micheline Bernardini – conhecida por suas performances desnudas na casa de espetáculos Casino de Paris. Já a invenção do burkini é creditada à australiana de origem libanesa Aheda Zanetti, que conta ter parido a ideia em 2004, em Sydney, ao ver sua sobrinha sofrendo ao praticar esporte coberta por um longo véu hijab. Continue lendo Biquíni x burkini

As vaias da polêmica

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PARIS – As vaias do público brasileiro ao atleta francês Renaud Lavillenie na prova de salto com vara chegaram audíveis aqui na França, provocando ampla repercussão na mídia nacional. Mas além da reação da torcida no Rio, a reação do próprio francês, derrotado na reta final pelo brasileiro e novo recordista olímpico Thiago Braz, ecoou do outro lado do Atlântico. Lavillenie, medalha de ouro na modalidade em 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, esperava repetir o feito no Rio, e não poupou palavras para descarregar sua frustração com a atitude da audiência nas tribunas olímpicas do Engenhão. Continue lendo As vaias da polêmica

Michel Lallement: a utopia do “faça você mesmo”

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O sociólogo francês Michel Lallement passou um ano entre os hackers. © Hermance Triay

FERNANDO EICHENBERG – ILUSTRíSSIMA/ FOLHA DE S.PAULO

PARIS – O século 21 marcará o início do fim do modelo dominante da sociedade assalariada e a afirmação crescente da “utopia concreta” de organizações coletivas sustentadas na autonomia, na solidariedade e no prazer do trabalho? Impregnado desta interrogação, o francês Michel Lallement, especialista em sociologia do trabalho e do emprego, passou um ano embebido na chamada comunidade hacker americana Noisebridge, instalada na baía de São Francisco. Sua vivência como membro do grupo, no período 2011-2012, resultou na recente publicação do livro “L’âge du faire” (A idade do fazer, ed. Seuil). Continue lendo Michel Lallement: a utopia do “faça você mesmo”

Agostar* em Paris

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“Desculpem-nos, estamos fechados”, é o anúncio onipresente no comércio, bares, restaurantes e padarias francesas em agosto.

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – “Não encontrar o caminho em uma cidade não quer dizer muito. Mas perder-se numa cidade, como nos perdemos numa floresta, exige toda uma prática”, escreveu o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Perder-se nos caminhos de Paris no estival mês de agosto exige uma prática singular, pois a capital francesa adota contornos de cidade fantasma. Em determinadas horas do dia, se pode flanar em meio a grandes avenidas sem vislumbrar um carro sequer no horizonte. Errando por certos bairros, a impressão é de que a cidade foi evacuada por alguma ameaça de ataque bacteriológico e só você não foi avisado. Continue lendo Agostar* em Paris

Um encontro em Budapeste: Peter Esterházy (1950-2016)

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Peter Esterházy em nosso encontro em Budapeste ©Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG

PARIS – Em meio aos trágicos atentados de Nice, uma outra morte me pegou de surpresa, em outros lados da Europa, na cidade de Budapeste. Em 14 de julho último, o escritor húngaro Peter Esterházy, 66 anos, sucumbiu a sua luta contra o câncer, combate evocado em seu livro lançado há cerca de um mês, “Diário Íntimo do Pâncreas”. Nos encontramos para uma entrevista na capital húngara no gelado novembro de 2008. Continue lendo Um encontro em Budapeste: Peter Esterházy (1950-2016)

Nice: “Horrível, horrível”

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Serviços franceses socorrem as vítimas do ataque em Nice. ©Twitter

“Foi horrível, horrível, horrível”. Era só o que a brasileira Denise Barros, 37 anos, conseguia repetir após testemunhar a chacina provocada pelo ataque do caminhão em Nice, durante o espetáculo de fogos de artifício do 14 de julho, a data nacional da França. Maranhense, há dez anos na França, ela estava em Nice com o namorado francês para passar o feriado do 14 de julho, a data nacional da queda da Bastilha. Continue lendo Nice: “Horrível, horrível”

Paris: capital das manifestações

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“A liberdade guiando o povo” (1830), de Eugène Delacroix

Quem acompanha a atualidade francesa tem visto os incessantes protestos contra a nova legislação trabalhista do país. Uma passeata faz parte do cotidiano do parisiense assim como a Torre Eiffel no horizonte e a baguete matinal na padaria da esquina. A capital francesa é reconhecida como a capital mundial das manifestações de rua.

Ao longo de 2015 e no primeiro trimestre deste ano, ocorreu um total de 2.456 manifestações reivindicativas em Paris, uma média de mais de cinco por dia, segundo as fontes oficiais. Bandeiras e protagonistas não faltam: protestos contra o racismo e o antissemitismo; o sexismo e o preconceito a gays, lésbicas e transexuais; a austeridade e o desemprego; os armamentos nucleares; a reforma da escola pública; o fim do programa de rádio Là-bas si j’y suis, criado em 1989. Mesmo os policiais protestam nas ruas exigindo um adicional por “risco terrorista” e contra a violência sofrida nas diversas manifestações.

Anne Hidalgo e a ameaça terrorista: “Não se deve ter medo de vir a Paris”

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FERNANDO EICHENBERG/ O GLOBO

PARIS – Fincado no coração da capital francesa, o chamado Hôtel de Ville acolhe desde 1357 a administração municipal de Paris, mas o prédio atual foi edificado no fim do século 19, após um incêndio ter reduzido a cinzas as antigas instalações. O vasto e belo gabinete da prefeitura de Paris é hoje ocupado pela primeira vez por uma mulher. Espanhola de nascimento e francesa por adoção, Anne Hidalgo, de 57 anos, se elegeu para o cargo em 2014 disposta a sacudir com seu forte temperamento velhos hábitos da Cidade Luz — sem receio de criar polêmicas, como tem demonstrado. Além de tratar de problemas como a redução da poluição dos carros, a prefeita abraçou a candidatura de Paris como sede dos Jogos Olímpicos de 2024. À frente de uma delegação própria, viajará ao Rio no período das competições, quando também deverá ser eleita sucessora do prefeito Eduardo Paes na presidência do C40, grupo de mais de 80 cidades do mundo no combate às mudanças climáticas.

Leia a entrevista em O Globo

Polêmica racista

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A Eurocopa 2016 começa sob o temor da ameaça terrorista na França, mas também tentando apaziguar a polêmica surgida no país em torno de denúncias de racismo na seleção nacional.

A controvérsia foi deflagrada pelo ex-jogador Eric Cantona, ao acusar o treinador da equipe francesa, Didier Deschamps, de discriminação racial por não ter convocado Karim Benzema e Ben Arfa por causa das origens magrebinas dos dois jogadores.

– Ele, Deschamps, tem um nome muito francês. Aliás, talvez seja o único em nosso país a ter um verdadeiro nome francês. Ninguém, na sua família, se misturou com qualquer outro. Como os mórmons nos Estados Unidos. Os dois (Benzema e Ben Arfa) têm origens norte-africanas. Portanto, o debate está aberto – anunciou Cantona.