Hergé, criador de Tintim, invade o Grand Palais

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Retrato de Hergé feito pelo artista Andy Warhol, em 1977 © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc. / ADAGP, Paris 2016 – © Jean–Pol Stercq / ADAGP, Paris 2016.

FERNANDO EICHENBERG / ZERO HORA

PARIS – Exatos trinta anos depois que o italiano Hugo Pratt, criador do memorável Corto Maltese, foi acolhido com uma exposição no prestigioso Grand Palais, a história em quadrinhos (HQ) é novamente celebrada nos nobres espaços do museu parisiense. Desta vez, o homenageado é o belga Hergé (1907-1983), genitor em 1929 do intrépido repórter aventureiro Tintim e seu inseparável cão Milu, além do Capitão Haddock, da cantora de ópera Bianca Castafiore, do professor Girassol e dos detetives Dupond e Dupont, protagonistas de um total de 24 álbuns de sucesso planetário.

A mostra privilegia o criador à criatura. A ideia foi a de revelar o percurso de Hergé – Georges Remi de nascimento -, artista frustrado que se projetava numa carreira de pintor e acabou catapultado à fama como autor de HQ. No início da década de 1960, em pouco mais de dois anos ele pintou três dezenas de quadros de inspiração abstrata, marcados pela influência de nomes como Miró ou Paul Klee, mas nunca conseguiu se impor no meio da arte. Ironias da vida, uma de suas telas, de 1963, foi vendida em leilão, em 2011, por 35 mil euros; já em 2015, um comprador desembolsou 1,6 milhão de euros por uma prancha dupla original do álbum O Cetro de Ottokar, das aventuras de Tintim. affiche-herge-okA exposição, simplesmente intitulada “Hergé”, debuta com alguns dos quadros de sua autoria e também com obras de sua coleção de arte privada, assinadas por Alechinsky, Liechtenstein, Dubuffet ou Andy Warhol (que pintou três retratos do próprio Hergé). Também é revelado um aspecto menos conhecido do autor: seus trabalhos gráficos publicitários, na forma de cartazes e logotipos. O universo de Tintim, obviamente, é explorado em toda sua criação. Hergé defendia a HQ como uma arte de expressão completa, a exemplo do cinema e da literatura. Já a relação com seu personagem foi freudiana. Seu colaborador Jacques Martin contou que, certa vez, Hergé entrou no estúdio de desenho e desabafou: “Tintim, eu o odeio! Você não tem ideia até que ponto”. Toda a polêmica sobre os aspectos racista, antissemita e colonialista de Hergé e de seu personagem (como a controvérsia em torno do álbum Tintim no Congo), ou mesmo sua passagem pela redação do jornal Le Soir durante a Segunda Guerra Mundial, quando era mantido por colaboracionistas belgas, ficou ausente da exposição, sob o argumento de que a intenção não era fazer um “processo político” do autor, nas palavras do curador Jérôme Neutres. Para quem desejar se aprofundar nestas nebulosas passagens de sua trajetória, no rastro da exposição, que estará aberta à visitação até 15 de janeiro de 2017, estão sendo relançadas algumas das principais biografias de Hergé já publicadas.reporter-au-pays-des-soviets-projet-de-couvProjeto de capa inédita, 1930 © Hergé/Moulinsart 2016