Arquivo da categoria: Política

Karoline Postel-Vinay: “A política não sobrevive no terreno das incertezas”

Mulher passa diante de um grafite em Londres: para analista francesa Incertezas científicas sobre pandemia alimentam disputa por influência entre líderes globais. © Henry Nicholls/ Reuters

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Diante das incertezas científicas que cercam a pandemia da Covid-19, multiplicam-se as narrativas políticas que buscam, por necessidade ou oportunidade, conferir coerência ao enfrentamento da crise, observa a cientista política Karoline Postel-Vinay. Especialista no estudo de narrativas nas relações internacionais, tema de seu próximo ensaio, a analista do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po) afirma que a política “tem horror à zona vaga de incertezas”, terreno no qual não sobrevive.  No caos mundial provocado pelo coronavírus, governos nacionais, organismos internacionais e movimentos de opinião criam seus próprios discursos, em uma “batalha de influências” que, segundo prevê, será ainda mais acirrada no período pós-crise. Continue lendo Karoline Postel-Vinay: “A política não sobrevive no terreno das incertezas”

Pandemia acentua crise da democracia e pode promover um novo tipo de Estado-nação

Homem vestindo uma máscara caminha em frente à sede da Comissão Europeia, em Bruxelas. ©Aris Oikonomou/AFP

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PARIS – A crise deflagrada pela pandemia do coronavírus está sendo considerada como capaz, uma vez terminada, de alterar não apenas os sistemas econômicos, mas também as formas de governança política no mundo. Um dos cenários que tem sido evocado por analistas aponta para a configuração de um novo Estado-nação, diferente dos modelos existentes nas democracias ocidentais e também dos populismos-nacionalistas contemporâneos. Continue lendo Pandemia acentua crise da democracia e pode promover um novo tipo de Estado-nação

Após semanas de impasse, União Europeia libera ajuda de 500 bilhões de euros contra pandemia

Homem de máscara em frente à sede da Comissão Europeia, em Bruxelas.                                          ©Yves Herman/Reuters

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PARIS – Após receber muitas críticas pela falta de ação e de solidariedade no início da crise provocada pela Covid-19 no continente, a Europa conseguiu chegar a um acordo em mais uma tentativa de formular uma resposta comum aos efeitos da pandemia. Ao final da maratona de reuniões dos ministros das Finanças da União Europeia (UE), que começou há dois dias e terminou na noite de quinta-feira, foi acertada uma ajuda de cerca de € 500 bilhões para os países europeus, recursos que deverão ser liberados em duas semanas. Permaneceu, entretanto, o impasse na questão da emissão de títulos de dívida conjuntaapelidados de eurobônus ou de coronabonds, principal reivindicação das nações de economias menos robustas, que sofreram uma derrota. Continue lendo Após semanas de impasse, União Europeia libera ajuda de 500 bilhões de euros contra pandemia

Alvo de protestos, reforma da Previdência é batalha decisiva para Emmanuel Macron

Manifestante passa por colagem que mostra Macron com uniforme da polícia antidistúrbios: reforma está no centro de sua campanha de mudar a sociedade francesa. ©Alain Jocard/AFP

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PARIS – A cada tentativa de mudança no sistema de Previdência Social na França, ressurge a frase do ex-primeiro-ministro Michel Rocard, pronunciada em 1991: “A reforma da aposentadoria é capaz de derrubar vários governos”. No ar, paira o espectro das greves e manifestações de 1995, que paralisaram o país por três semanas e fizeram o então premier Alain Juppé abandonar seu projeto de reforma. O atual embate entre parte da sociedade civil, sindicatos e o governo em torno de mais um esforço de alteração nas regras, coloca o presidente Emmanuel Macron em uma encruzilhada. Para analistas ouvidos pelo GLOBO, trata-se da reforma mais importante de seu quinquênio e crucial para o futuro do mandato. E assinalam que o desfecho desta queda de braço, seja qual for, favorecerá Marine Le Pen, líder do partido de extrema-direita Reunião Nacional (RN), em suas ambições nas eleições presidenciais de 2022. Continue lendo Alvo de protestos, reforma da Previdência é batalha decisiva para Emmanuel Macron

Macron muda estilo para Ato II de seu governo

Com a mulher Brigitte e ministros, Macron visita escola no interior da França; francês quer afastar a impressão de que governa longe do povo/ ©Lurovic Marin/Reuters

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PARIS – A segunda metade do governo do presidente Emmanuel Macron começou sob a ameaça de dossiês potencialmente abrasivos e uma crescente contestação social. Temas como a reforma das aposentadorias, a ecologia, a imigração e o projeto de lei sobre a reprodução assistida prenunciam inflamados debates no Parlamento e na sociedade civil. Para o chamado Ato II de seu mandato, o líder francês se esforça em demonstrar que aprendeu lições da revolta dos coletes amarelos e que pretende encerrar seu quinquênio com um método de governança marcado pelo diálogo e a concertação, sem no entanto renunciar as suas ambições de reformar o país. Continue lendo Macron muda estilo para Ato II de seu governo

Cúpula da divisão: G7, que perdeu a relevância original, ocorre em contexto de divergências entre seus líderes

Amazônia é mais um dos temas que separam ultranacionalistas como Trump de internacionalistas como Macron; divisão inclui ainda Irã, Rússia, guerra comercial e Síria. ©Markus Schreiber/AP/SIPA

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PARIS – No status de anfitrião, o presidente francês, Emmanuel Macron, recebe de sábado a segunda-feira, no aprazível balneário de Biarritz, seus colegas do grupo de países ricos do G7 (Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, Japão, Itália e Canadá) em um turbulento contexto mundial. Embora o tema central do encontro seja “a luta contra as desigualdades”, as expectativas giram em torno de conversas paralelas sobre polêmicos dossiês como a guerra comercial entre os EUA e a China, o acordo nuclear iraniano e a escalada de tensões entre Washington e Teerã, o conflito na região síria de Idlib, a situação na Ucrânia, as negociações do Brexit ou a urgência climática – reforçada pela indignação internacional insuflada pelas queimadas na Amazônia. Na avaliação de analistas, a cúpula presidida pela França, que não terá o tradicional comunicado final, é marcada de forma inédita por fortes dissensões entre seus participantes, igualmente envolvidos com importantes problemas domésticos Continue lendo Cúpula da divisão: G7, que perdeu a relevância original, ocorre em contexto de divergências entre seus líderes

Viagem ao coração da extrema-direita francesa

Na cidade de Hénin-Beaumont, a extrema direita elegeu pela primeira vez um prefeito já no primeiro turno, no pleito municipal de 2014. © Fernando Eichenberg

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HÉNIN-BEAUMONT, França – Nas terças e sextas-feiras de cada semana, os moradores de Hénin-Beaumont e arredores percorrem os estandes do mercado público da cidade, que se estende da Place de la République por duas vias adjacentes. Situada na região de Nord-Pas-de-Calais, no Norte da França, Hénin-Beaumont se tornou, no pleito municipal de 2014, a cidade em que pela primeira vez o partido de extrema-direita Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, elegeu um prefeito já no primeiro turno. Ex-centro de mineração e de tradição operária, então administrada pela esquerda, a localidade foi atingida pela desindustrialização, registra hoje um índice de desemprego próximo dos 20%, e se converteu nos últimos anos em reduto da direita radical. A menos de um mês das eleições presidenciais, as pesquisas de opinião apontam que, se o voto ocorresse hoje, o segundo turno seria disputado entre Le Pen e o candidato centrista Emmanuel Macron, do movimento Em Marcha!. Seguem atrás o conservador François Fillon, de Os Republicanos, e quase empatados Benoît Hamon, do Partido Socialista (PS), e Jean-Luc Mélenchon, do movimento de extrema-esquerda A França Insubmissa. Hénin-Beaumont, de 27 mil habitantes, é um dos exemplos da popularidade de Marine Le Pen, e seus simpatizantes locais se autoproclamam “os primeiros marinistas”. Continue lendo Viagem ao coração da extrema-direita francesa

França vive crise inédita do bipartidarismo em 2017

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PARIS — Pela primeira vez na História recente da França, os dois principais partidos políticos poderão ficar simultaneamente de fora do segundo turno das eleições presidenciais. A cerca de um mês do pleito, as pesquisas de opinião descartam as presenças do candidato conservador François Fillon, de Os Republicanos (LR, na sigla em francês), e do esquerdista Benoît Hamon, do Partido Socialista (PS), no duelo que definirá o sucessor de François Hollande. Segundo as sondagens, se as eleições fossem hoje, o embate final seria travado entre o centrista Emmanuel Macron, do movimento independente Em Marcha!, e a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN). À parte os prognósticos, analistas políticos apontam razões globais e nacionais para o atual descrédito junto ao eleitorado das duas tradicionais forças políticas que há décadas partilham o poder na França. Continue lendo França vive crise inédita do bipartidarismo em 2017

Direita francesa começa escolha de seu candidato para as eleições de 2017

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Da esquerda para a direita: Nicolas Sarkozy, Alain Juppé e François Fillon, os favoritos nas pesquisas. ©Christophe Archambault/AFP (montagem)

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Na reta final das eleições primárias da direita francesa, três nomes aparecem em condições de brigar pelas duas vagas do segundo turno na disputa que definirá o candidato conservador no pleito presidencial de 2017. Entre os sete concorrentes, as últimas pesquisas de opinião apontam Alain Juppé, Nicolas Sarkozy e François Fillon como o trio favorito das urnas no primeiro turno deste domingo. Na falta de um nome de consenso, é a primeira vez que a direita organiza uma primária para escolher seu candidato, aberta também aos eleitores de centro, em uma campanha marcada por uma maior direitização do debate político. Continue lendo Direita francesa começa escolha de seu candidato para as eleições de 2017

13 de novembro: os efeitos colaterais no debate político francês

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Soldados franceses em vígilia diante da Torre Eiffel iluminada com as cores da bandeira nacional. ©Joel Saget/AFP

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS -Os franceses prestam homenagens neste domingo em memória das 130 vítimas dos atentados cometidos há exatamente um ano, em 13 de novembro de 2015, na capital francesa, um acontecimento cujos reflexos ainda são sentidos. Os massacres de Paris, somados aos ataques na redação do jornal “Charlie Hebdo” e na orla de Nice, provocaram um profundo trauma na sociedade francesa. A onda de choque da violência terrorista promovida pelo Estado Islâmico (EI), entre tantos efeitos colaterais, influiu também no debate político e nas perspectivas para as eleições presidenciais no país, marcadas para abril e maio de 2017. Continue lendo 13 de novembro: os efeitos colaterais no debate político francês

Anastasia Colosimo: “A blasfêmia é um problema político”

Foto/Divulgação
Foto/Divulgação

FERNANDO EICHENBERG / FOLHA DE S. PAULO

PARIS – Em 7 de janeiro de 2015, quando os irmãos Kouachi dizimaram com rajadas de kalashnikov a redação do jornal “Charlie Hebdo”, fazia três anos que Anastasia Colosimo estudava com afinco a questão da blasfêmia, das origens até as polêmicas contemporâneas. Vieram os mortíferos atentados de 13 de novembro, um novo sismo no país, e em janeiro deste ano, a pesquisadora publicou o ensaio “Les bûchers de la liberté” (As fogueiras da liberdade, ed. Stock), recebido com elogios pelos principais veículos de mídia do país. Colosimo aponta “equivocados” debates na França no rastro dos atentados terroristas.


A blasfêmia é um problema teológico-político, e não religioso, defende ela, ao mesmo tempo em que critica uma escalada de leis nocivas e contraproducentes que acirram o comunitarismo e a crispação identitária e enfraquecem a proteção da liberdade de expressão no país.


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O desafio é combater junto o Estado Islâmico

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FERNANDO EICHENBERG / ZERO HORA

PARIS – No rastro de sangue deixado pelos recentes atentados de Paris, o presidente François Hollande conclamou uma nova coalizão internacional para combater de forma unida e intensa as forças do Estado Islâmico (EI). Nesta terça-feira, recebeu a promessa de apoio e de solidariedade da União Europeia (UE). Nos próximos dias 24, em Washington, e 26, em Moscou, se encontrará com seus colegas Barack Obama e Vladmir Putin, na tentativa de superar discordâncias e unificar ações.


Ataques na França abriram uma nova fase na luta contra o terrorismo, mas, para especialistas, não será fácil unir os interesses de diferentes países em um só objetivo.


Três especialistas ouvidos por ZH avaliam que a tragédia do 13 de Novembro deflagrou uma nova etapa na luta contra o EI, mas alertam que a união desejada pela França não será tão fácil de ser concretizada diante das diferenças de abordagens e de interesses dos diversos países envolvidos. Para Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, da França, o recrudescimento da ameaça terrorista implica um aumento da resposta exigida, mas resta a incerteza de que se possa alcançar rapidamente o resultado esperado.

— Uma nova coalizão internacional é possível, mas não será instalada imediatamente. Será preciso um concerto dos países ocidentais, das nações árabes do Golfo, da Turquia, do Irã, da Rússia… Mesmo que todos sejam inimigos do EI, nem todos têm a mesma apreciação de como lutar contra o EI e das prioridades – explica o diretor.