Emmanuel Carrère: autor francês repassa sua obra, o ato da escrita e rejeita o rótulo de autoficção

Emmanuel Carrère: “Tenho a chance imensa de fazer parte das pessoas que ganham a vida fazendo o que gostam. Por outro lado, creio que é preciso respeitar seus sofrimentos, admitir que eles existem e não tratá-los com desprezo”. © Foto: Fernando Eichenberg

FERNANDO EICHENBERG / REVISTA QUATRO CINCO UM

PARIS — No final do ano passado, ao receber a Quatro Cinco Um acomodado na ampla sala de seu apartamento parisiense, nos arredores da Place de la République, Emmanuel Carrère contou ter recém-chegado da Ucrânia e estar em fase de montagem de um documentário para o canal de tevê Arte. A ideia é fazer um retrato do país em guerra por meio de encontros nos trens: “O espaço aéreo da Ucrânia está fechado, e todos têm um motivo de ir de um lado a outro. A vantagem dos trens é que temos as pessoas à disposição, não é como abordá-las na rua. Em Kiev não se sente a guerra. Já as pessoas ao redor do front são mais amargas, pensam que tudo pesa sobre seus ombros, e que mais o tempo passa mais o resto do país ignora o conflito”, relata. Carrère é o jornalista e documentarista fascinado pelo outro e suas íntimas histórias. Também é o roteirista e cineasta, em trabalhos com a autora de romances policiais de sucesso Fred Vargas ou a renomada atriz Juliette Binoche. Mas sua principal faceta, a qual dedica mais tempo, é a de escritor de livros — com oito de seus títulos publicados no Brasil pela Alfaguara e um pela Record. “Tenho esse tripé de profissões, escrever livros, reportagens e roteiros, e tive a chance de fazer filmes, que é um trabalho de grupo. É também uma questão de equilíbrio psíquico. Na escrita de livros depende-se muito de si mesmo, o que pode me precipitar em estados depressivos, e o fato de ter outras atividades mais ‘tranquilas’ é muito importante”, observa.

O premiado escritor francês, às vésperas de completar 67 anos, rejeita a etiqueta de “autoficção” para suas obras lançadas a partir da publicação, em 2000, de O adversário, sobre a vida de Jean-Claude Romand, um médico impostor assassino de sua mulher, filhos e pais para evitar que fosse desmascarado. Sem saber como desenvolver a escrita do texto, a solução surgiu na forma do “eu”: “Na manhã de sábado, 9 de janeiro de 1993, enquanto Jean-Claude Romand matava sua esposa e filhos, eu estava com minha família em uma reunião de ensino na escola de Gabriel, nosso filho mais velho”. Para sua literatura, o escritor prefere a definição de “romances não ficcionais”, narrados na primeira pessoa. Seu mais recente livro, V13: o julgamento dos atentados de Paris — como ficaram conhecidos os ataques terroristas da sexta-feira (vendredi, em francês) 13 de novembro de 2015, em Paris —, é um mergulho nos processos judiciais envolvendo as vítimas e réus dos trágicos ataques terroristas na capital francesa. As audiências duraram de setembro de 2021 a junho a de 2022, assistidas presencialmente por ele do primeiro ao último dia. Ioga, sua obra anterior, é um profundo e reflexivo testemunho sobre um período de violenta depressão que levou-o à internação psiquiátrica, vivido em meio as crises do mundo. O estado depressivo também está presente em O reino, no qual o autor, hoje agnóstico, relata seus três anos de devoção cristã, mesclados a uma rigorosa pesquisa sobre as origens do cristianismo. Em Outras vidas que não a minha, a partir de uma tragédia na família de sua então mulher, aborda “a vida, a morte, a doença, a pobreza extrema, a justiça e, sobretudo, o amor”, em descrição de suas próprias palavras. Escritor prolífico, em Limonov narra a história de um personagem real, que conheceu, e que foi bandido na Ucrânia, ídolo do submundo soviético, vagabundo, mordomo, escritor da moda em Paris, soldado nas guerras dos Bálcãs e líder de um partido de jovens na Rússia pós-comunista.

Após um ano de escrita, Carrère acaba de colocar o ponto final em um novo livro, sobre sua família, mas que não ficou de seu agrado: “Não está bom. Meu editor leu e gostou muito, mas do jeito que está não me convém. E tenho dificuldade em saber o por quê. No momento, preciso fazer outras coisas, como essa reportagem na Ucrânia, e talvez vá retomá-lo daqui a um ano, não sei. É como uma terra em pousio, que se deixa um tempo sem cultivo para que depois possa germinar novamente”.

Você começou a escrever imitando os escritores francês Jules Verne e americano H. P. Lovecraft. O que você via na escrita deles?

Criança, caí nos livros que provocam medo. E Lovecraft é o líder dos livros que dão medo. Devo ter começado a ler este tipo de literatura ao redor dos 12 anos, e fui fisgado para toda a vida. Já Jules Verne é mais antigo. Tinha essa ideia de viagens extraordinárias. Gostei muito na época, mas hoje não me vem a ideia de relê-lo. Mas ainda releio Lovecraft vez ou outra, com uma mistura de temor e admiração por algo que não se parece a nenhuma outra coisa.

Nenhuma frase teve um efeito tão poderoso para você como a que aparece no conto O testemunho de Randolph, deLovecraft: “Seu idiota, Warren está morto!”. Por quê?

É pela maneira de como essa frase aparece no final do conto. Há de repente essa impressão de alguém que desce nesse tipo de cripta, tumba, e o que se ouve dele são palavras cada vez mais desordenadas e assustadas. E essa frase é de súbito pronunciada por uma outra voz. E há também a disposição do texto, com a frase em itálico. Havia algo para mim extraordinário nisso tudo. Mas é verdade, comecei a escrever sob o apadrinhamento disso. É uma espécie de mantra para mim.

Você realmente aprecia histórias que amedrontam…

Sempre amei isso. Sempre amei a literatura fantástica, e sem me vangloriar poderia dizer que sou uma autoridade nisso. É muito difícil citar um título da literatura fantástica americana dos anos 1920 ou 1950 que não conheça. Poderia facilmente compilar antologias, por tanto tê-las lido.

Hoje, você diz não conseguir se reconciliar com o Carrère adolescente, aterrorizado consigo mesmo, com a vida e com os outros. Como você era nessa época?

Eu fui um adolescente muito inquieto, complexado, dolorido, que não gostaria de ser novamente. Foi um período difícil. Tive uma infância muito feliz, mas a adolescência foi muito ruim. E comecei a escrever nessa época.

Foi a partir do sucesso de O bigode (1986), que por pouco não ganhou o prêmio Goncourt, o mais importante da francofonia, que você decidiu fazer da escrita sua profissão?

Havia escrito antes dois romances, que não têm um grande interesse. Aprendia escrevendo. E o primeiro livro que ao mesmo tempo obteve sucesso e que tive a impressão de que valia algo foi O bigode. E, mais uma vez, foi um relato do fantástico. Sim, tinha vontade de escrever e me disse então que me tornaria escritor. Acabei sempre vivendo como escritor, exceto por uma dezena de anos que ganhei a vida como jornalista, o que continuo a ser hoje — gosto disso, penso que seja algo bastante fértil. Em determinado momento, me propuseram escrever roteiros, o que foi também uma forma de ganhar minha vida por muitos anos, e ainda o faço hoje. Adaptei quase todos os romances de Fred Vargas para a tevê. É algo que me dá prazer. Se me faltar inspiração para escrever livros, ao menos tenho um tipo de competência artesanal, sei fazer essas outras coisas.

Em um momento difícil de sua vida, no qual também estava em pane de inspiração, seu agente, François Samuelson, salvou-o ao propor a escrita de uma biografia. E você escreveu uma biografia romanceada do escritor  americano Philip K. Dick, Je suis vivant et vous êtes morts (1993), um de seus livros preferidos. Como foi isso?

Eu gosto muito desse livro. E não é um de meus livros conhecidos. Adorei escrevê-lo. O risco quando se escreve uma biografia é que chega um momento em que ficamos fartos do personagem. Mas nunca foi o meu caso com Philip K. Dick, e ele era uma pessoa insuportável. Mas sempre gostei muito dele. O escritor é imenso. Uma grande parte da cultura popular atual vem de Dick, que as pessoas saibam ou não disso. Matrix é uma descendência direta dele. E esse livro me salvou de um período de profundo marasmo. François me disse que assim não dava mais, que era preciso que eu escrevesse algo. Eu estava sem ideias e ele me sugeriu uma biografia. E pensei que Dick era uma boa ideia.

O adversário marca uma virada na sua trajetória, pois a partir desse livro você cessou de escrever ficção.

Foram sete anos escrevendo esse livro, com uma interrupção para lançar La classe de neige (1995), que é um tipo de duplo fictício de O adversário. Foram anos também bastante difíceis. Esse livro foi terrível de escrever. Não conseguia encontrar o bom distanciamento. Havia esse homem real (o assassino Jean-Claude Romand), estava em contato com ele. Era um ser humano, deveria ser respeitoso em relação a ele. Humanamente foi algo complicado, sob todos os pontos de vista. A partir daí passei a escrever na primeira pessoa. Não foi algo consciente. Não tinha mais vontade de fazer diferente, e penso que não saberia mais fazê-lo. Escrevi dois livros autobiográficos, Um romance russo (2007)e Ioga (2020), os outros não o são, mas são escritos na primeira pessoa. Mesmo Limonov (2011), O reino (2014) ou Outras vidas que não a minha (2009) são livros na primeira pessoa, que é uma espécie de autoridade narrativa. E tenho dificuldade em proceder de outra forma. Hoje não tenho o desejo de fazer diferente, mas quem sabe um dia escreverei um livro de ficção.

Por que a frase “E ele iria se perder, sozinho, nas florestas do Jura’, que encerra o artigo publicado por Florence Aubenas no jornal Libération sobre o caso Romand, se tornou um mantra para você?

Essa frase abre para um tipo de paisagem florestal, nevada, misteriosa, que toca ao mesmo a infância e algo perigoso e ameaçador. É como se nessa frase houvesse uma abertura poética sobre o que poderia se tornar esse livro. É uma frase muito forte pra mim.

Para você, poucos livros foram escritos em um “desconforto moral absoluto” como A sangue frio (1966), do escritor Truman Capote, que relata o assassinato de uma família em Holcomb, cidade americana do estado do Kansas. Como foi isso para você ao escrever sobre o caso Romand?

Sim, penso isso sobre o livro de Capote. Eu senti esse desconforto moral, mas não de maneira tão forte. A sangue frio, para mim, é um livro imenso. Penso que toda pessoa que escreve a partir de um fato de noticiário, o faz sob a sombra de A sangue frio. Não sei quantas vezes já o li, e a cada vez que releio fico estupefato com sua força narrativa e a beleza de sua prosa. É uma obra-prima. Mas Capote refutou a primeira pessoa, enquanto ele era um dos protagonistas do livro. E ao mesmo tempo, era o melhor amigo dos dois criminosos, e talvez estivesse inclusive um pouco enamorado de um deles. Ele passava o tempo a dizer para eles que haveria um pedido de clemência, que se iria recorrer aos melhores advogados, e na realidade seu interesse é que fossem enforcados, pois esse era o final do livro. Desconforto moral é uma expressão leve para isso. O meu foi menor, pois fui honesto em minha relação com Romand, não menti para ele, disse que não era seu advogado e não estava escrevendo um livro a seu serviço. E ele compreendeu muito bem. Não estava na mesma situação de Capote. A relação era muito desconfortável, é especial estar em contato com alguém que matou toda a sua família, mas não tenho a impressão de tê-lo traído.

De 1991 a 2021, você viveu a experiência de escrever crônicas judiciárias…

Sempre gostei de processos criminais. Muitos escritores adoram isso. É algo apaixonante. Aqui no Palácio de Justiça, muitas pessoas vão assistir às audiências como se fossem a uma sessão de cinema. É a humanidade. E é um teatro, um cerimonial. A crônica judiciária é um gênero jornalístico muito literário. Há jornalistas que fazem artigos e reportagens sobre casos criminosos, mas os cronistas judiciários assistem todos ao mesmo espetáculo, como os críticos de cinema. O que difere não é a informação, mas a sensibilidade, o olhar, o talento. Por isso os cronistas judiciários são, entre a corporação de jornalistas, os mais literários. E eles adoram o que fazem. Não trocariam isso por nada. Pascale Robert-Diard, do jornal Le Monde, que é absolutamente formidável, faz isso há trinta anos.

Em V13, você diz que lhe interessa, por um lado, a ideia abstrata de justiça, e de outro, o teatro da justiça. O que essa cobertura para a revista semanal Le Nouvel Observateur, que depois virou livro, mudou em você e na sua ideia de justiça e de verdade?

Honestamente, o processo do V13 expôs uma ideia elevada da Justiça. Claramente, o Estado francês decidiu que seria uma vitrine para mostrar que o Direito era a resposta apropriada à barbárie. Uma ideia que poderia parecer um pouco virtuosa, mas ao mesmo tempo penso que funcionou. Todos os papeis da Justiça foram muito bem representados. Tudo se passou notavelmente. O que fez com possa ter havido um pouco dessa virtude catártica. Muitas pessoas entre as partes civis estavam contentes que esse processo possa ter acontecido. Algo se passou. Por temperamento, sou bastante desconfiado em relação aos grandes discursos e tudo mais, mas nesse caso foi algo diferente. E a experiência foi apaixonante mesmo quando era tediosa. E foi muitas vezes tediosa. Foram semanas inteiras. Mas houve uma espécie de comunidade que se criou. O início foi insuportável por causa da violência e intensidade dos testemunhos dos sobreviventes e familiares das vítimas. Foi terrível. Durante dois meses não dormia à noite e me despertava chorando. Acho que foi o mesmo caso para todos. Mas depois tomou um ritmo de cruzeiro, e gostei muito de escrever os artigos semanalmente para a revista. E nunca tive a angústia da página em branco, pois sempre havia coisas demais a contar. Fiquei feliz em fazê-lo. Foi uma experiência excepcional.

Você afirma que normalmente somos fascinados pelos criminosos, mas que nesse caso as vítimas foram destaque.

São os criminosos que comumente achamos interessantes. Quando escrevi O adversário, o que interessava era Romand, sua família. E no V13 foi o contrário. Entre as centenas de vítimas, houve depoimentos de uma força extraordinária, de personalidades muito fortes, enquanto os caras no banco dos réus eram deploráveis.

Que lições você tira hoje de seu período de conversão cristã, entre 1989 et 1993, descrito em O reino?

É algo muito longe hoje, mas ao mesmo tempo o Evangelho continua ser para mim um tipo de lar, de uma proximidade muito forte. Acho que não há nenhuma necessidade de ser crente para ser tocado pelo Evangelho, numa  sensação de que há uma espécie de verdade profunda que se exprime. Tentei contar nesse livro que era algo muito voluntarista de minha parte, como se fosse me salvar em um momento em que precisava ser salvo. E o que me salvou foi sobretudo o fato de escrever um livro (risos). Mesmo me sentindo hoje muito longe de tudo isso, passei anos apaixonantes e felizes a escrever esse livro, que tenta atingir um tipo de núcleo do cristianismo. Não sei se consegui.

Você diz ter rejuvenescido com o tempo, em grande parte graças ao trabalho, e aprecia a definição de Freud de saúde mental: a capacidade de amar e de trabalhar.

Penso que é muito justa essa definição. A outra definição de Freud de que gosto muito é quando ele diz que o objetivo da psicanálise e da evolução na vida é passar da infelicidade neurótica à infelicidade ordinária. A infelicidade neurótica é aquela que fabricamos nós mesmos, a ordinária é aquela a qual não podemos escapar, ou seja, a doença, a morte de pessoas que amamos. A saúde mental é, sem dúvida, poder ser afetado pela infelicidade ordinária e um pouco menos pela neurótica. É uma definição bastante operatória.

Em livros como Outras vidas que não a minha, no divã de seu psicanalista e na vida geral você diz ter se queixado da dificuldade em viver uma verdadeira relação amorosa. Ainda é assim hoje?

Creio que essa dificuldade de amar existe em muitas pessoas, mas eu tenho tendência a olhá-la com uma lupa. Hoje estou bem, estou amando.

Você foi diagnosticado com transtorno bipolar de tipo 2 e sofrimento moral intolerável, e chegou a ser internado em hospital psiquiátrico, experiência que conta em Ioga. Como você convive hoje com esses termos médicos?

O sofrimento moral intolerável felizmente passou. Foi um momento da vida que não desejo a ninguém, e que é definido objetivamente por essas palavras. Já o transtorno bipolar não tenho em um grau muito elevado. Não faço parte das pessoas que ficam peladas em plena rua. Para algumas pessoas, isso destrói completamente a vida, e para outros é mais moderado, o que é o meu caso. Facilita colocar nomes nas coisas. E é verdade que a química também ajuda. Aprendemos a viver com isso.

Você começa o epílogo de Ioga dizendocontinuamos a não morrer”, e encerra com “estou plenamente feliz por estar vivo”.  Continuar a não morrer não é a mesma coisa que estar feliz em viver.

É uma frase que está na carta de um adolescente, ao dar notícias a sua avó, durante os grandes expurgos soviéticos. Ele diz “não se preocupe, vó, eu continuo a não morrer”. Seria indecente me comparar com ele. Não se pode ser indecente comparando seus sofrimentos de bobô (contração de burguês-boêmio em francês)parisiense com as pessoas em Gaza, por exemplo. Tenho a chance imensa de fazer parte das pessoas que ganham a vida fazendo o que gostam. Por outro lado, creio que é preciso respeitar seus sofrimentos, admitir que eles existem e não tratá-los com desprezo.

Um romance russo teve para você as “virtudes catárticas” esperadas.  Foi um livro em que você abordou de frente certas dores e que lhe fez bem?

Hoje é um livro que considero um pouco embaraçoso. A forma como falei de minha companheira da época é algo que não repetiria com ninguém. Há algo de exibicionismo nesse livro que não faria novamente hoje.

Durante um longo período, a escrita foi para você um terreno de depressão e angústia, mas com o tempo, para sua surpresa, passou a ter prazer em fazê-lo. O que mudou?

Depende. Tive bastante prazer em escrever um livro como O bigode. Tive muito prazer em escrever O reino, gostei que foi um livro longo no tempo, no qual estive imerso. Gostei de escrever Limonov. E também V13, mas que foi relacionado ao tempo jornalístico. E tive momentos de não conseguir escrever, de me colocar um tipo de pressão. Não se tornou com o tempo um caminho repleto de rosas. Mas com a idade, as coisas parecem menos difíceis. Sabe-se melhor como driblar esse tipo de coisas.

Os livros e filmes que mais o tocam são os que mostram ao mesmo tempo as dimensões “horizontal” — o amor, a amizade e as alianças em geral — e “vertical” — as relações entre as gerações. Hoje, você diz se interessar mais pela dimensão vertical. Por quê?

Gosto muito quando se mostra as relações entre as pessoas, amorosas, de amizade, entre pessoas da mesma geração, e também entre gerações, pais, filhos. Gosto quando essas duas dimensões da vida estão no mesmo livro, me parece uma representação mais completa da vida. Para mim, a morte dos pais nos situa nessa corrente de gerações. Nos interrogamos mais sobre o que há antes e depois de nós. Tenho a impressão de hoje ser mais sensível a isso do que quando era mais jovem. Antes, tudo o que me interessava eram meus amigos e meus amores. O livro que acabei de terminar é sobre a história da minha família, que escrevi com muito prazer e sem dificuldade, mas ao mesmo tempo sinto que algo não está bem nele.

© Foto: Fernando Eichenberg

Você é contra a definição de “autoficção” para seus livros…

O que faço não chamo de autoficção, porque não é isso. Uma grande parte de meus livros é algo um pouco estranho que consiste em colocar meu próprio olhar e um objeto externo, como o começo do cristianismo para O reino ou o fim do comunismo em Limonov. Não são livros autobiográficos, mas estou presente como narrador, e relato minhas reações, sentimentos, impressões. Tenho dificuldade em chamar isso de autoficção. 

Você prefere “romances não ficcionais”.

Isso sim. A forma é o romance. Tenho a impressão de utilizar todos os recursos narrativos do romance. Essa foi a denominação de Truman Capote para A sangue frio, “non-fiction novel”, o que me parecejusto.

Você diz que há poucos verdadeiros romancistas.

Penso que a impulsão de inventar uma história é menor do que a de tentar contar sua experiência do mundo. O romance não é majoritário. Mas sou um grande leitor de romances, adoro. Sempre li muito.

O que está lendo atualmente?

Recentemente escrevi um artigo no Le Monde sobre o livro Cabane, de Abel Quentin, que gostei muito. Sou um leitor muito eclético. Releio Lovecraft de vez em quando. Mas a literatura brasileira não conheço muito, exceto por Clarice Lispector. Do México, gosto de Guadalupe Nettel. Confesso que o mundo literário anglo-saxão me é muito mais familiar.

Para você um dos critérios que determinam a fronteira ficção e não-ficção é o fato de mencionar os personagens pelo seu verdadeiro nome, um “contrato de leitura”, como diz, que lhe interessa como autor.

Isso é verdade. Quando você coloca os nomes verdadeiros na narração, assume uma responsabilidade. No cinema, é bastante clara a diferença entre um documentário e uma ficção: num caso há atores que interpretam os personagens, e no outro são os verdadeiros personagens. Na literatura é mais complicado. Em Ioga, digo no livro que há um personagem que é semi-imaginário. Mas não gosto disso, não é algo do que me orgulho tê-lo feito, não do ponto de vista moral, mas artístico e deontológico. Ioga é um livro de que gosto, mas é um pouco desequilibrado. Por diversas razões, há episódios da minha vida que não podia abordar (interditado por sua ex-mulher), mas que eram necessários para a compreensão de certas coisas. Eu me apressei na escrita desse livro, quis me livrar dele. Teria sido melhor deixá-lo repousar um tempo e retomá-lo depois.

A sua forma de escrever é marcada pelo cinema, como uma montagem?

Gosto de jorrar a matéria, e depois começar a organizá-la. Estranhamente, o que o cinema realmente me acrescentou como escritor foi a familiaridade do trabalho de montagem.

Seu filme Ouistreham, baseado no livro de Florence Aubenas e apresentado no Festival de Cinema de Cannes em 2021, sobre uma escritora que se mistura a um grupo de faxineiras — interpretadas por atrizes não profissionais —, foi um projeto da atriz Juliette Binoche.

Sim. Foi uma ideia dela, não minha. Ela é sempre formidável, mas nesse caso foi ainda mais, porque era o projeto dela. Ela se engajou verdadeiramente no filme. Havia o risco de que não funcionasse. E se o filme tem algo de especial é por causa dela, que soube deixar essas mulheres em confiança de forma extremamente generosa, natural. Gosto desse filme.

Algo que funciona na psicanálise e na literatura, na sua opinião, é associar dois elementos que aparentemente não combinam, na aposta que isso resultará em uma coisa do “reino do indizível”. “Por que fazer simples se podemos fazer complicado?” é sua divisa?

Eu fiz muita análise, por cerca de 30 anos, não corridos. Acredito muito nisso que você mencionou. Uma das bases da psicanálise é esse sistema de associação que faz com que coisas que parecem não combinar, de fato combinam. Eu procuro fazer simples, mas a partir da complexidade das coisas e do mundo. Buscar uma forma e uma linguagem simples, mas para agarrar o máximo de complexidade.

Para você, tudo que pensamos merece ser escrito, embora não  necessariamente digno de ser conservado. Seria o que procura fazer grande parte da literatura: reproduzir o fluxo de pensamento, como Montaigne, Laurence Sterne e Diderot. São eles suas referências?

É uma forma de literatura, à qual sou ligado. Há uma frase de Thomas Bernard que diz que não é complicado escrever, basta baixar a cabeça e tudo que está nela cai sobre o papel. Montaigne, Sterne e Diderot são bons exemplos disso. São autores de uma grande liberdade. Adoro isso. Mas gosto também de outros autores que podem estar no oposto disso, que não têm essa tipo fluxo de pensamento.

Você já escreveu um ensaio sobre a ucronia e se considerava um especialista no tema. É um assunto que ainda lhe interessa?

Hoje o que se faz são distopias. É o que funciona. Tenho um amigo editor que me disse que um em cada dois livros que recebe é sobre uma distopia. É uma variação da ucronia, não está longe, conta como teria se tornado o mundo se tivesse seguido um outro caminho.

Você se angustia com o que se passa hoje no mundo?

Sim. É um pouco banal dizer isso, mas me angustia mais por meus filhos. Eu fiz minha vida. Tive a chance de viver minha juventude numa sociedade em que não havia desemprego, fazia reportagens por todo canto do mundo, os jornais tinham recursos para isso. Era uma situação histórica favorável. Mas meus filhos vivem num mundo cada vez mais assustador. Não vejo como não ser terrivelmente pessimista, ou então é acreditar em Papai Noel. É extremamente problemático. Há uma tal conjunção de fatores absolutamente catastróficos, o aquecimento climático hoje é irreversível, por exemplo. É realmente terrível.

Você escreveu um artigo contando o fiasco da entrevista que fez certa vez com a atriz Catherine Deneuve, e menciona que uma das raras perguntas que provocaram uma resposta interessante foi: o que você teria feito se não tivesse se tornado uma atriz? Pergunto: o que você teria feito se não tivesse se tornado escritor?

Teria talvez feito algo relacionado ao Direito, quem sabe advogado. Senão, o que teria adorado, mas que é totalmente inconcebível para mim, seria cientista. Mas sou tão ignorante, que não seria possível. Ou então músico. Escuto muita música, sobretudo a música clássica. Adoraria ser pianista.

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