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A SEGUNDA VIDA DE MATISSE

 La gerbe, (O ramalhete) 1953, se tornou uma das mais famosas obras de Matisse, de 3,1 x 3,5 metros

FERNANDO EICHENBERG – REVISTA ELA/O GLOBO

PARIS – Em 16 de janeiro de 1941, o artista francês Henri Matisse, sofrendo de um câncer do cólon, foi operado de urgência na clínica do Parc, na cidade de Lyon. Pós-cirurgia, sobreviveu a uma embolia pulmonar. Após ter “escapado da morte por um fio”, como ele mesmo confessou, os médicos lhe deram uma previsão de seis meses de vida. Aos 72 anos, obrigado a permanecer boa parte do tempo acamado, locomover-se em cadeira de rodas e usar um colete de ferro que lhe permitia ficar em pé por não mais do que uma hora, o diagnóstico para o futuro de sua criação artística não era dos mais otimistas. Mas foi exatamente o contrário que se passou. Após um período de convalescência recluso em seu quarto no Hotel Regina, em Nice, Matisse, classificado pelo nazismo em ascensão como “artista degenerado”, renasceu artisticamente. “Eu havia me preparado tanto para a minha partida desta vida, que parece-me estar vivendo uma segunda vida”, confidenciou em uma carta a seu amigo pintor Albert Marquet, em janeiro de 1942, um ano após sua operação.

Branche de Prunier (ramo de ameixeira), 1948, uma das pinturas de sua última fase.

Mais de 300 obras — muitas delas raramente vistas — dessa sua derradeira fase, de 1941 até sua morte, em 1954, aos 84 anos, foram reunidas pelo Centro Pompidou e podem ser atualmente admiradas em uma grande exposição no Grand Palais, em Paris, até 26 de julho. “Esse é o período mais prolífico de sua carreira”, avalia Claudine Gaumont, curadora da exposição “Matisse, 1941-1954”. “É realmente seu apogeu, onde se nota uma forma de liberdade, por meio da qual vai livrar-se de certas restrições. Essa última parte de sua obra expressa um momento de graça. Picasso dizia que, naquele momento, Matisse sabia exatamente muito bem onde queria chegar”. Sua arte ganhou um novo alento, apesar de sua delicada condição física. Em uma outra missiva, de dezembro de 1942, Matisse escreveu: “As pessoas acham que eu me expresso com facilidade. Errado. Estou sempre trabalhando em uma obra, assim como um pianista faz escalas ou um acrobata pratica exercícios físicos. Eu gosto do dificuldade”.

Obra para o livro “Jazz”.

A mostra no Grand Palais apresenta obras essenciais deste período: a última série de pinturas Intérieurs de Vence, de 1946-1948, o álbum cult “Jazz” — uma melodia de papéis colcoridos recortados, as séries de desenhos de Thèmes et Variations, os desenhos a pincel e a tinta, os principais elementos do projeto da capela de Vence, os painéis monumentais La Gerbe, Acanthes, L’Escargot eMémoire d’Océanie. Por fim, as grandes figuras em guache recortado, como La Tristesse du roi, Zulma, Danseuse créole e a série dos Nus bleus, excepcionalmente reunidas.

Em seu retorno à vida, no início de 1942, Matisse retomou a prática do desenho, criando autorretratos, retratos, corpos eróticos e sensuais — um aspecto de sua obra comumente negligenciado pela crítica — ou ilustrações para livros. “O traço que meu lápis faz na folha de papel tem, de certa forma, algo de semelhante ao gesto de um homem que procura o caminho na escuridão”, definiu. Nessa época, não abandonou de todo a pintura: produziu 75 novas telas até 1948. Mas a grande novidade são suas colagens em guaches recortados, uma experimentação de papéis coloridos cortados com tesoura. “Temos conhecimento de que ele fez mais de 230 guaches recortados”, diz Claudine Gaumont. “Só no ano de 1950, produziu 40 obras com essa técnica. É muito, imagine, para um homem de 80 anos, bastante cansado. Ele estava realmente com um novo fôlego criativo.” 

Polynésie, la mer (Polinésia, o mar), 1946, inspirado em sua viagem ao Tahiti, em 1930.

Matisse contava com ajudantes para preparar os guaches e pregá-los nas parede, tudo orquestrado por Lydia Delectorskaya, sua fiel assistente russa desde 1932, responsável pelo que chamava de “fábrica”. Nada no local era fixo: a cama sobre rodas se deslocava, a mesa de pintura era giratória, e sua coleção de objetos, móveis e tela moviam-se de uma peça a outra, e por vezes mesmo entre seus apartamentos em Nice e Paris. Em 1952, o artista revelou: “Não é possível  imaginar o quanto, neste período de recortes de papel, a sensação de voar que surge em mim me ajuda a ajustar melhor minha mão quando ela guia o curso das minhas tesouras. É algo bastante difícil de explicar. Eu diria que é uma espécie de equivalência linear, gráfica, da sensação de voar”.

Na Revista ELA, de O GLOBO.

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