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PATTI SMITH: ESCRITORA ROCK’N’ROLL

Revolução na alma: reflexões de quem mudou o cenário musical do século XX. ©Bob Wolfenson

FERNANDO EICHENBERG – REVISTA ELA / O GLOBO

Não estava nos planos de Patti Smith escrever um novo livro autobiográfico. Mas, certa noite, sonhou que um entregador batia a sua porta com um pequeno pacote. Era um livro branco, enrolado em um fita branca, ilustrado por  fotografias no estilo de Irving Penn (1917-2009), e que contava sua vida como um fluxo. Ela despertou com as mãos abertas como se estivesse segurando o objeto, de tão reais que haviam sido seus devaneios noturnos. Supersticiosa, se viu levada a seguir os ditames de seu subconsciente. O resultado é  Pão dos anjos, recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras, em que a precursora do punk rock e autora do cult e premiado Só garotos mergulha em memórias de sua infância pós-Segunda Guerra Mundial na Pensilvânia e sul de Nova Jersey até períodos de sua vida adulta, com direito a um epílogo de prosa poética em tom de transe confessional.

Patti Smith não se abstém de detalhar perdas e episódios difíceis de sua vida, como o da filha que teve aos 20 anos de idade, cedeu para adoção, e que décadas depois conseguiu encontrar e estabelecer uma relação. Não faltam relatos íntimos sobre os desaparecimentos prematuros de seu querido irmão Todd, de seu inseparável companheiro das artes Robert Mapplethorpe ou de seu amado marido Fred Sonic Smith. Nem detalhes de como descobriu, aos 70 anos, que seu pai não era seu genitor biológico, o qual morreu aos 52 anos e ela nunca conheceu.

Às vésperas de completar 80 anos, e ainda se recuperando da turnê internacional comemorativa do cinquentenário de seu emblemático álbum Horses, Patti Smith assume a passagem do tempo, e embora confesse ter vivido um grave momento de descrença, afirma ter retomado a confiança no humano e a vontade de viver. Ela se define como uma escritora, uma humanista e uma lutadora — do seu jeito peculiar. Sua receita de resistência aos turbulentos tempos atuais é minimalista: “Seja bom. Isso, por si só, é uma forma de ativismo”. E após uma hora e meia de entrevista, ainda sobrou disposição para o bom-humor: “Adoraria continuar essa conversa com você no Café de Flore, em Paris. Não sei como isso aconteceu, mas já somos velhos amigos. Mas não se preocupe, você não é meu tipo (risos). Mas você paga o café!”.

Você escreve desde os sete anos de idade. Desde a infância, já havia decidido que queria ser escritora.  O que escrever significa para você hoje? O que mudou ao longo de todos esses anos? 

A única mudança é que isso se tornou mais forte para mim. Muito jovem, não era particularmente talentosa. Tinha uma imaginação realmente incrível, mas não era uma escritora habilidosa. Demorei muito tempo para desenvolver isso. Quando cheguei aos 20 anos, já tinha várias vocações. Fazia artes visuais e, claro, cantava e gravava. Trabalhava com muitas coisas. Escrever era muito importante para mim. Mas, à medida que o tempo foi passando, isso se tornou essencial. É assim que me defino como artista. Não como uma estrela do rock ou cantora. Seja como fotógrafa ou em qualquer outra coisa, na minha cabeça, me identifico como escritora. E, para mim, é a única coisa que não poderia deixar de fazer. Ficaria triste se nunca mais pudesse cantar, fazer fotos ou desenhar. Mas poderia viver sem isso. Se não pudesse escrever fisicamente, estaria escrevendo na minha cabeça. É como respirar. Há períodos em que, por algum motivo, tenho dificuldade de escrever. Mas é sempre algo constante em minha mente.

Você se autodefine como uma “trabalhadora”.

Essa é a resposta mais sincera, porque trabalho todos os dias. E mesmo quando estou com dificuldade para escrever, edito ou faço outra coisa produtiva, com minhas fotos ou algo assim. Mas tenho uma necessidade real de trabalhar. Sempre o fiz desde cedo, quando era babá. Trabalhei colhendo mirtilos nos campos, também em uma fábrica, e depois, por anos, em uma livraria. Sempre ganhei meu próprio sustento. É natural para mim trabalhar não só de forma criativa, mas também para cuidar de mim e da minha família. Venho de uma família da classe trabalhadora, mas simplesmente transformei minha visão de trabalho em arte.

Arthur Rimbaud, que você descobriu aos 15 anos, e Bob Dylan, aos 17, são assumidamente as suas duas maiores influências. Por que eles?

Em primeiro lugar, porque ambos falavam por mim, numa linguagem pela qual ansiava. Mesmo que não a compreendesse totalmente, era uma linguagem com a qual me sentia em sintonia. Li Rimbaud pela primeira vez com Iluminações. Fiquei instantaneamente encantada. Não posso dizer que entendi tudo, mas isso não importava. A linguagem em si era tão bela. O mesmo com Bob Dylan em Desolation Row, Tombstone Blues ou Ballad of a Thin Man. Para mim, era como olhar para Jackson Pollock ou Jimi Hendrix. Era algo imediato. Havia ainda outro elemento: era uma adolescente, sem namorado e um pouco desajeitada. Esses dois homens realmente me atraíam, como uma fantasia. Sonhava acordada como qualquer outra adolescente. Mas, em vez de sonhar com os meninos da minha turma, sonhava acordada com Rimbaud e Bob Dylan. Parte disso era apenas por ser uma garota. Porém, o mais importante foi a linguagem de ambos, o trabalho deles. Porque, depois de um tempo, você pode superar essa atração físic, mas nunca superei a obra de nenhum dos dois, especialmente a de Rimbaud.

A poesia é, segudo pensa, é uma das artes mais elevadas e também das mais difíceis. Sempre foi algo difícil para você?

Mais jovem, escrevia poesia o tempo todo, principalmente nos anos setenta. Foi uma época muito produtiva para mim em termos de poesia. Escrever letras de música não era tão fácil, porque estava acostumada a uma linguagem mais complexa, não me vinha naturalmente. À medida que fui envelhecendo, porém, diria que especialmente nos últimos dez anos, passei a escrever poemas muito raramente. Tudo o que sei de poesia está impregnado na prosa que escrevo. Escrevo poemas em prosa. Fui muito influenciada por Uma estação no inferno (de Arthur Rimbaud), por Gérard de Nerval e pelos simbolistas franceses. A ideia do poema em prosa é muito importante para mim. Busco isso. Era o que eu estava fazendo esta manhã, na verdade, editando textos que eram essencialmente… não sei como chamá-los. Então, simplesmente chamo esses textos de “poemas em prosa”, porque são mais complexos ou mais impregnados da linguagem da poesia do que a prosa pura. Não escrevo muitos poemas propriamente ditos, e penso que isso tem a ver com a idade. Grande parte da minha poesia girava em torno do amor, a pessoa que me deixou ou por quem eu estava apaixonada, ou da raiva. Demorei muito tempo para escrever depois da morte do meu marido. Escrevi alguns poemas para ele e meus filhos. Mas depois achei muito difícil escrever poesia. Mas ainda escrevo poesia em prosa. E ainda hoje leio e estudo Uma estação no inferno, que para mim continua sendo o grande modelo de poesia em prosa.

É curioso o fato de que tenha sido por meio das revistas de moda que você descobriu o mundo da arte, da fotografia, do estilo e de novas formas de expressão. 

Sim. Foi depois da Segunda Guerra Mundial. Morávamos num prédio que parecia prestes a ser demolido, um edfício em ruínas, cheio de crianças e imigrantes. Ia à escola, lia livros, mas não tinha acesso a nenhuma experiência cultural de verdade. E encontrei essas revistas Vogue, por volta de 1954, com capas de Irving Penn. Nunca tinha visto revistas assim, somente aqueles catálogos baratos, que minha mãe, como todas as donas de casa, costumava folhear. Nunca tinha entrado em uma loja chique ou visto ninguém se vestir daquele jeito. Minha mãe não comprava essas revistas, mas as pessoas as jogavam no lixo. E comecei a resgatá-las. Aprendia sobre exposições de arte, Jackson Pollock, Brancusi. Estava vendo arte e moda, de alta costura. Era um garota alta e magra, tinha uns oito anos. Havia algo na qualidade dessas fotografias, e também na forma como as pessoas se apresentavam, que me atraía. Além disso, havia resenhas de livros ou pequenas histórias sobre, por exemplo, Julia Margaret Cameron ou Richard Avedon, e assim conheci um mundo totalmente diferente. É muito engraçado que tenha recebido uma instrução tão precoce por meio de revistas de moda, mas foi uma boa educação. Outra coisa engraçada é que, aos 13 anos, anotava os nomes das marcas de roupa, como Dior, Balenciaga. E quando íamos a grandes brechós, alguns muito bons em Camden, na Filadélfia, onde muitas pessoas ricas doavam suas roupas, encontrava blusas de seda da Dior e outras coisas por quase nada, 50 ou 25 centavos. Lembro que tinha um casaco de tweed Harris.  Nenhuma dessas peças me servia muito bem, mas tinha as melhores roupas e marcas. Aprendia sobre moda à minha maneira peculiar. Mas acho que todas essas coisas apontavam para uma certa estética consistente, até mesmo na descoberta de Rimbaud, um poeta entre todos os poetas que lia, como Walt Whitman, Carl Sandburg, Y. B. Yeats e outros. Era um poeta francês, moda francesa. Talvez tenha sangue francês inato.

Você encontrou sua voz na escrita e no canto por meio das viagens, graças à turnê internacional do álbum Horses, que completou 50 anos em 2025.

No que diz respeito à escrita, estava observando o mundo, sentanda em cafés em diferentes cidades, e vendo arte. Realmente, comecei a escrever muito mais. Muitos dos meus livros foram escritos na Europa, especialmente em Paris. Grande parte de Pão dos anjos escrevi em Nova York, e outras partes em diferentes países pelos quais viajei. O início e o fim escrevi em Nice, e uma outra parte na Polônia. Tenho um pequeno livro chamado Devoção que escrevi quase inteiramente no Café de Flore, em Paris, exceto a parte que escrevi em Lourmarin, visitando a casa de Albert Camus. Fiquei lá com a filha dele. Por alguma razão, quando estou viajando ou em um café em Nova York, escrevo bastante. Linha M escrevi muito em Nova York, novamente em uma mesa de café. Sinceramente, é lá que escrevi mais. Só garotos escrevi uma parte depois que recebi minha medalha de Comandante (da Ordem das Artes e das Letras francesa). O ministro da Cultura me deixou usar uma pequena sala do palácio para escrever. Tomava chá em porcelana napoleônica da China. E terminei no sul da França, na propriedade de Vanessa Paradis e Johnny Depp. Partes de Pão dos anjos escrevi em diferentes países pelos quais viajei. E, sim, encontrei uma voz mais forte ao começar a me apresentar em concertos pelo mundo. Mas sinto que minha voz de cantora desenvolvi mais na Europa. Não acho que teria seguido a carreira de cantora ou gravado discos se não tivesse aberto meu mundo para as viagens. Tive a oportunidade de conhecer o mundo, encontrar pessoas de diferentes lugares. E há tanta cultura. Os Estados Unidos têm uma cultura inerente, moderna, o rock’n roll, o jazz, o expressionismo abstrato. Fizemos algumas contribuições, mas quando você viaja, toda a história está aos seus pés.

É curioso também porque você tem essa dualidade de dizer que não é uma pessoa muito sociável, mas bastante solitária, e ao mesmo tempo gosta e trabalhar com pessoas.

Posso cantar para cem mil pessoas e me sentir muito à vontade. Consigo trabalhar com um grupo totalmente novo de pessoas e me sentir bem. Mas se tenho de ir a um jantar, é muito difícil. Às vezes, não sei o que dizer para a pessoa ao meu lado. Não que não queira, é que tenho dificuldade em manter uma conversa casual. Então, por vezes isso me faz parecer antipática. Sempre fui assim. Mesmo quando era criança, não queria ir à casa dos parentes, nem ter que conversar quando eles nos visitavam. Só queria ficar no meu quarto ou debaixo de uma árvore lendo um livro. Mas me importo com as pessoas, apenas não sou muito boa em socializar. É o meu jeito. 

Em 1976: após ter lançado o álbum Horses (1975), marco na história do rock. Foto: arquivo pessoal

Você passou por muitas perdas e dificuldades na sua vida. vVcê deu para adoção a filha que teve aos 20 anos, e anos depois conseguiu encontrá-la e estabelecer uma relação. Você perdeu seu querido irmão Todd, seu inseparável companheiro das artes Robert Mapplethorpe e seu amado marido Fred Sonic Smith de forma prematura. Há dez anos, descobriu que seu pai não era seu genitor biológico, o qual você nunca conheceu. Quão difícil foi para você lidar com tudo isso? 

Como diz Samuel Beckett: “Não consigo continuar, mas continuo”. Eu amo a vida. Amo trabalhar. Tenho uma imaginação muito ativa. Simplesmente sinto que há tanto por viver. Não importa o período, não é só a perda que me define. Isso torna a vida difícil. É o nosso mundo. É viver no nosso mundo presente com suas dificuldades, lidar com o nosso governo atual e todas as mudanças terríveis e desafios que vêm dessa situação. Tudo o que ocorreu na Palestina e ainda continua, e o fato de que as pessoas estão morrendo de fome no Sudão. Para todos os lugares que você olha, tem uma noção do sofrimento dos outros, e cada um de nós tem seu próprio sofrimento pessoal. E eu quero viver. Sou uma pessoa responsável. Tinha filhos para cuidar. Não podia simplesmente desistir quando meu marido faleceu, porque tinha uma criança de seis anos e outra de 12. Simplesmente aprendi a não levar essas coisas para o lado pessoal. Às vezes, temos de aceitar, sentir a dor e passar por ela de forma intermitente durante toda a vida. Fred se foi há 30 anos, e em alguns dias parece simplesmente insuportável que não esteja aqui. De repente, olho para a uma foto sua e não consigo acreditar que ele não vai entrar na sala. Mas o sofrimento dos outros e o que as pessoas passam, isso já não é pessoal, está acontecendo com um povo inteiro. Isso torna ainda mais difícil manter o foco no próprio trabalho. Também sinto que vou fazer 80 anos (em dezembro). É claro que quero viver mais, quero amar. Há muito trabalho que quero fazer, e preciso manter o foco. Às vezes as pessoas me criticam porque me manifesto, ou dizem que não faço o suficiente. Meu poder é limitado. Não tenho uma voz muito forte. Sempre tive, e continuo tendo, a voz que tenho. De certa forma, tenho mais influência na Europa do que nos Estados Unidos. Faço o que for possível. Mas meu foco principal é cuidar da minha saúde, de mim mesma. Tenho que cuidar da minha família e honrar a vocação que tenho desde menina, fazendo o meu trabalho. E, nesse âmbito, também fazer o melhor que posso para ajudar os outros. Foi difícil saber das informações sobre minha ascendência. Quando comecei a escrever este livro, era muito focado no meu pai, a quem sempre admirei e realmente tentei tomar como modelo. Descobrir que ele não era meu pai biológico foi doloroso, mas apenas de uma forma narcisista. Não achei que alguém tivesse me enganado, nem que minha mãe tivesse mentido para mim, nem fiquei com raiva. Só queria ter um pouco do sangue dele, porque o admirava tanto. E isso é algo muito pessoal. Eu me inspirei nele com muito cuidado. Não era exatamente como ele, claro, mas tentei assimilar o máximo possível do caráter dele. E então percebi que, na verdade, havia uma pessoa que havia negligenciado a vida inteira, por quem eu não rezava nem pensava, porque morreu jovem: meu pai biológico faleceu aos 52 anos, mas posso lhe demonstrar gratidão todos os dias. E por isso estou feliz. Tenho três pais para honrar. Não fui uma filha perfeita, e nenhum deles era perfeito, mas sou grata a todos eles. Eu os amo, e sinto que fiz o meu melhor para honrá-los no livro.

O livro é bastante sensível a esse respeito.

Mesmo que huuvessem algumas pessoas, pelo menos um casal que foi muito injusto comigo, ou outras que me causaram dificuldades, nunca usaria um livro como forma de vingança. Algumas coisas relatei porque era verdade, e tinha motivos para contar o meu lado. Livros são muito preciosos, e não deveriam ser um lugar para descarregar todas as nossas queixas, para me vingar das pessoas ou ser cruel. As árvores, matéria-prima do papel , são preciosas. E, por isso, se vou escrever algo, seja qual for o assunto, quero que seja digno das árvores que são sacrificadas para produzir o papel em que será impresso. E sinto isso de verdade. Não é algo leviano. Penso nisso porque sou muito sensível em relação ao papel, e quero que a matéria dos meus livros seja de boa qualidade. Sinto que é importante respeitar a ideia do livro. Se você vai escrever um, respeite o pacote completo.

Você nunca imaginou que viveria por meuito tempo, mas está tendo uma vida longa.

Quando era jovem, fiquei muitas vezes doente. Era muito romântica, achava que seria como uma das pobres irmãs Brontë (escritoras britânicas do século 19), que com sorte escreveria uma obra-prima e morreria aos 32 anos. Ainda estou via, e tentando escrever uma obra-prima. Mas nunca esperei viver tanto tempo, simplesmente porque tive que enfrentar muitos desafios físicos. Mas tentei cuidar de mim mesma, e o destino tem sido generoso comigo. Por isso, ainda estou aqui.

“Queríamos criar algo novo”, lembra Patti, sobre as décadas de 1960 e 1970. ©Bob Wolfenson

E como você se sente em relação ao envelhecer?

Estou disposta a passar por todas as provações físicas. Vemos as marcas da idade. Tenho pequenas vaidades. Ainda quero ficar bem com certas roupas. Ainda me importo um pouco com a minha aparência. Nunca usei maquiagem, e não pretendo fazê-lo. Nunca faria nada de natureza científica para mudar o que sou. E consigo lidar com as dores e os incômodos da idade. Hoje sou muito mais desajeitada. Preciso de óculos o tempo todo. Mas encontro uma maneira de transformar essas coisas em vantagens. Espero viver uma vida longa, porque meu filho e minha filha perderam o pai muito jovens. Sou a única mãe que eles têm. Gostaria de estar aqui o máximo que puder por eles. E de estar aqui o máximo que puder para fazer um bom trabalho. Estou ok envelhecendo. Há coisas engraçadas. Esqueço os nomes das pessoas o tempo todo. Mas nunca fui boa nisso mesmo. Perco uma palavra por um tempo, como quando eu estava tentando falar sobre a atriz Bette Davis. Assisto aos filmes dela com minha mãe desde os seis anos. Não conseguia lembrar o nome dela, mas só por algumas horas. Isso costumava me incomodar. Agora, penso: tudo bem, seja lá o que for. É o estresse das células cerebrais ou algo assim. Vou acabar lembrando. Mas, desde que eu consiga fazer meu trabalho e sinta que a qualidade dele é boa, essas pequenas coisas são uma troca. Por outro lado, sinto que, como escritora, estou melhor do que nunca. E isso me deixa feliz, me faz sentir que estou melhorando. Não posso dizer o mesmo como artista. Sou uma performer muito forte, e me movia melhor quando era mais jovem. Sei disso. Parecia ter uma confiança infinita. Não pareço tão mais fotogênica. Mas em alguns aspectos, minha confiança, minha crença em mim mesma e meu senso de humor melhoraram. Não é tão ruim assim. Isso acontece com todos nós. É algo que conquistamos. Lembro-me de ver a Judi Dench e outras atrizes falando com muitas rugas no rosto. E elas diziam: “Sim, e conquistei cada uma delas”. É assim que me sinto. Seja o que for que eu tenha ou quaisquer que sejam os meus limites, conquistei esse meu jeito desajeitado de andar.

Você pensa na morte?

Bem, sinceramente, não pensava. Mesmo quando era jovem, romântica e achava que morreria jovem. Mas, depois que tive filhos, a morte se tornou algo mais triste para mim. Nunca pensei muito nisso, mas depois que completei 75 anos, os números começaram a subir. Sinto que estou me aproximando daquele ponto na cronologia em que isso se torna mais real, algo que você consegue ver no horizonte. Procuro não me fixar nisso, mas hoje permeia a consciência de uma forma que nunca ocorreu. Farei 80 anos. E 80 é um número real. Sim, é uma conquista, mas também é um número real. Mas também me apego às coisas. Tenho os livros mais maravilhosos um exemplar de A Cruzada das crianças em francês, autografado por Marcel Schwob; a edição de Uma estação no inferno, de Arthur Rimbaud, impressa em Bruxelas; a tradução de Samuel Beckett de O barco bêbado (também de Rimbaud), autografada por ele, um livro assinado por  Albertine Sarazin. Simplesmente amo tanto meus livros. E conheço bem os livros da minha infância, meu Pinóquio, meu Peter Pan. Sim, os livros de poesia que lia desde os seis anos de idade. É triste dizer adeus a eles. Mas, às vezes, agora que estou ficando mais velha, me vejo cumprimentando-os com muito mais frequência. Você tem livros que ama e, de repente, percebe: “Ah, eu tenho uma primeira edição de O Jogo das Contas de Vidro (de Hermann Hesse). Não olho para ele há dez anos. Então, agora vou até lá, cumprimento meus livros, toco neles, deixo que saibam que, mesmo que não esteja lendo, estou pensando neles.

E como é ter uma “corcunda rebelde”?

Não tenho tanta certeza de que você também não tenha uma. Para mim, é aquela velha história de que ter qualquer tipo de vocação é tanto uma bênção quanto uma maldição. É um fardo porque muitas vezes te coloca em apuros, te diferencia das outras pessoas. Muitas vezes faz com que se tenha dificuldade de entrar no fluxo social das coisas. Mas me sinto muito privilegiada. Diria que é um dom para a imaginação. Consigo acessar minha imaginação desde quando tinha quatro anos. Meus irmãos eram mais novos, passava muito tempo com eles, e os entretinha sem parar com histórias, jogos e coisas que inventávamos. Fui abençoada com uma boa imaginação. Nunca fui um prodígio. Não sou extremamente habilidosa. Sempre tive que me esforçar muito para ser uma escritora melhor ou qualquer outra coisa. Mas a única coisa que sempre tive e ainda tenho é uma boa imaginação, e a capacidade de canalizá-la e dar-lhe um novo propósito. E com a imaginação vem também uma consciência. Como você vai usar essa imaginação? Quando era criança, a usava para contar algumas mentiras. Era a pequena criminosa. Mas controlei minha imaginação, e a usei, especialmente à medida que fui ficando mais velha, para fazer coisas construtivas, e também para sobreviver.

Em família, com os irmãos, na infância: Patti é a primogênita. Foto: arquivo pessoal.

Certa vez você escreveu que por muito tempo teve uma espécie de traço de inocência que lhe dava muito entusiasmo pela vida, mas que, recentemente, era como se estivesse em sua cama, com a cabeça no travesseiro, e então ouvia a frase: “Nós que não acreditamos mais”. Você não acredita mais?

Sim, claro que acredito. Escrevi isso num momento de grande cansaço mental e emocional. Acho que o perigo para mim, especialmente nos últimos dois anos, foi ficar tão envolvida pelas coisas que estão acontecendo no nosso mundo, que acabei desenvolvendo uma espécie de cansaço. E a situação do povo palestino tem me absorvido nas últimas duas décadas. E ver isso acontecendo durante a minha vida, diante dos meus olhos, sabendo que parte do dinheiro dos nossos impostos é usado para cometer essas atrocidades. Essa destruição em grande escala, simplesmente me tirou algo de dentro, porque não é algo que possamos consertar. Está feito. Acabou. Simplesmente não consigo aceitar isso. Nunca falei sobre algo, mas vou lhe contar. Meu pai, no final da vida, ficou tão desanimado, e sempre citava Robert Burns: “a desumanidade do homem para com o homem”. Ele ficou devastado quando lançamos as bombas em Hiroshima, apesar de ter lutado contra os japoneses. Era  um grande humanista. Isso aconteceu no final de sua vida, tinha 83 anos, estava exausto. Ele se isolou, apesar de ser extremamente inteligente e profundamente preocupado com o mundo. Simplesmente não conseguia mais suportar a crueldade da humanidade. Ficava tão abalado com isso, sentia que era algo irrevogável. E simplesmente se retirou. Não estava triste por partir. Queria partir. E nós entendíamos isso. Ele tinha câncer, mas não lutou contra. Simplesmente se foi. O motivo pelo qual trago isso à tona é que, quando escrevi aquilo a que você se referiu, me senti muito parecida com ele, com o que ele sentia. Para todas as coisas que significavam algo para mim, achava muito difícil orar. Quando rezava, não sabia se estava orando para Deus. Estaria rezando para Fred? Eu me sentia cansada demais para isso, como Verlaine, quando escreveu : “Natureza, nada em ti me comove”. Lembro-me de quando era jovem e pensava: “Ah, qual é, Verlaine, algo na natureza te comovia”. Eu me senti assim. E, sinceramente, fiquei um pouco preocupada. E vou te dizer, não é como se fosse um grande segredo, só não tinha falado ainda sobre isso, e por alguma razão você está me fazendo abrir o jogo. Fiquei um pouco preocupada por achar que estava exagerando. Estava imitando meu pai, e achava que não conseguiria me recuperar disso, porque ele não foi capaz de fazê-lo. Ele simplesmente foi embora. Eu não queria isso, porque sou uma lutadora. Além disso, tenho muitas coisas pelas quais lutar. E não são apenas meus filhos, minha família, mas, na verdade, minha vocação. Isso é algo pelo qual vale a pena lutar. Mas foi o que fiz. Foi assim que me senti. Mas então, para onde fui? O rosto da minha irmã, para começar, porque ela é muito séria. Bem, séria nem é a palavra certa. Ela é uma Testemunha de Jeová completamente devota. É totalmente dedicada ao seu sistema de crenças, a Cristo como o Salvador. E a crença dela é tão plena, tão abrangente e inabalável, que a vejo como alguém que acredita. E sei que tenho a capacidade de, mesmo que não consiga acreditar em algo específico, acreditar na crença de outra pessoa. Isso faz sentido?

Faz sentido.

Por um tempo, pensei: “Tudo bem, eu acredito. Acredito plenamente. Vou acreditar se alguém disser que vai para o Paraíso”. E não digo isso de forma leviana. De alguma forma, no último capítulo do livro, Andarilha, me desviei do arco narrativo, e terminei encontrando meu pai. Quer dizer, descobrindo minha ascendência e acessando-a em minha mente. Então, simplesmente decidi que não iria mais escrever em um tom autobiográfico, mas no presente. Não fazia ideia do que iria sair. E nessa última parte do livro, reencontrei minha crença. E onde estava o cerne disso? Para onde precisava ir? Lá para a infância, quando acreditava em tudo. Acreditava em Deus, nos anjos, fadas, duendes, e nos meus próprios poderes. Então, acho que nesse capítulo encontrei não só a minha voz, ou a minha voz para cantar, mas também recuperei a minha crença, porque não tenho nenhum sistema de crenças específico. Para colocar da forma mais simples possível, estou simplesmente feliz por estar viva. Estou realmente feliz. Estou feliz por estarmos conversando. Nunca nos conhecemos antes, e sinto como se fôssemos velhos amigos ou algo assim. Não sei o que é, mas temos algo. E isso simplesmente faz com que haja algo para se alegrar todos os dias, apesar de tudo estar desmoronando ao nosso redor. Apesar de todas as atrocidades, é como se isso fizesse você perceber por que Anne Frank disse: “Eu ainda acredito que as as pessoas, no fundo, são verdadeiramente boas”. Mesmo com tudo o que está acontecendo, temos de lembrar qual é a nossa tarefa. Não nasci ativista. Nasci sendo outra pessoa. Nasci para fazer o trabalho que estou fazendo. E penso nisso quando as pessoas me perguntam sobre ativismo. Há pessoas que dedicam toda a sua vida a diferentes formas de bondade e ativismo, como Greta Thunberg ou Jane Goodall. Se não somos desse jeito, o que podemos fazer? Eu apenas digo: seja bom. Seja uma boa pessoa. Isso é uma forma de ativismo por si só. Seu vizinho esteja doente, você o ajuda. Uma criança cai no meio da rua, você a socorre. Alguém não tem dinheiro suficiente para pagar o café, e você lhe dá. E pode ser algo muito maior. Mas apenas ser uma boa pessoa. Sendo americana e vendo como somos governados hoje, não vejo ninguém bom. É terrível olhar para toda a cúpula do governo, e não ver um único ser humano bom e empático. Não me importa se as pessoas são vermelhas, azuis, democratas ou republicanas. Só quero uma boa pessoa. Mas não vejo bondade. E isso é horrível, doloroso e assustador. Qual é a maior forma de resistência? Ser bom. Na verdade, acidentalmente ecoei Arthur Rimbaud no final do livro. Ele disse em uma carta a Verlaine, quando eles brigaram em Londres: “Por favor, volte. Prometo ser bom”. Isso sempre me impressionou. Porque Rimbaud, não importa o que fizesse, por mais arrogante que fosse ou por mais cruel que às vezes pudesse parecer, sabia distinguir o bem do mal. Sabia disso porque lutou contra o mal. Lutou contra ele durante uma estação no inferno. E quando ele diz “prometo ser bom”, penso nisso. É uma palavra linda em inglês. “Good” (bom) contém “God” (Deus). Então, sou totalmente a favor do bem.

“Todo mundo tem uma maneira diferente de lutar. E tive de lutar do meu jeito”. ©Bob Wolfenson

Você passou por muitas dificuldades na vida, mas também recebeu muitos “pães dos anjos”, esses “gestos espontâneos de bondade”, segundo o significado para você da expressão “bread of angles”, título de seu livro.

Tive muitas pessoas que me ajudaram ao longo de toda a minha vida. Meus irmãos acreditaram em mim e me ajudaram a me sentir especial. Tive pessoas que me ajudaram a me reerguer. Sinto uma grande responsabilidade para com todas essas pessoas, não de um jeito ruim, não como um fardo ou como se tivesse uma grande dívida. Mas quando as pessoas acreditam em você e te ajudam, seja por amor, com uma mão amiga ou financeiramente, é muito importante mostrar a elas da melhor maneira possível que a decisão de se doarem foi respeitada. É também importante reconhecer as pessoas que te inspiraram. Sei quem sou. Sei quem faz o meu trabalho. Não me sinto menos artista ou escritora se reconhecer as pessoas que me influenciaram. Nem menos mãe se reconhecer as pessoas que me ajudaram a cuidar dos meus filhos ou financeiramente. É importante reconhecer os outros com uma simples frase ou talvez uma história. Esse foi um dos objetivos do livro — na verdade, não algo que tivesse planejado, mas que simplesmente evoluiu: expressar gratidão a diferentes pessoas, mesmo que apenas com algumas palavras. Ao longo de toda a minha vida, não sei por que, pessoas me ajudaram e acreditaram em mim. Seja alguém como William Burroughs, que como você sabe podia ser muito rabugento. Não tinha muitas amigas e nem era um mentor para muitas mulheres, mas gostou de mim, me acolheu sob sua proteção e foi realmente um professor incrível. E tive muitos professores excelentes na minha vida, apesar de poder ter sido, no passado, um pouco arrogante ou até um tanto presunçosa. Por vezes demorava um pouco para entender o quanto deveria ser grata. Mas tive muita sorte mesmo.

Feminicídios são muito frequentes no Brasil, e houve um número recorde no ano passado. Mas isso ocorre não só no Brasil, mas em muitas partes do mundo. É verdade que houve muitos avanços nos direitos para as mulheres nos últimos anos, mas também retrocessos. Você se define como feminista?

Bem, nunca me identifiquei assim, e a razão pela qual não o fiz é porque, como nas religiões, todo movimento acaba tendo suas regras. As pessoas querem que fale sobre os direitos das mulheres, mas me preocupo com os direitos de todas as pessoas, e às vezes temos que lutar pelos direitos de todos. Tenho um filho, uma filha, e me preocupo, por diferentes motivos, com os direitos de ambos. Apenas tentei, mesmo quando era mais jovem, me comportar como ser humano da maneira que achava que devia me comportar. E, como artista, sentia que não iria me limitar a alguma ideia preconcebida de gênero ou de como uma cantora ou uma garota deveria ser, porque lutei contra isso a vida inteira. Vim ddo sul de Noiva Jersey, que, como você sabe, é uma região de classe média baixa. Mesmo que você chegasse à classe média, naquela época, no início dos anos 1960, não se esperava que garotas dirigissem ou tivessem carros, isso era coisa de homem. As jovens deveriam ser secretárias, cabeleireiras ou mães, e era algo muito limitante. Nossos papéis eram limitados, e simplesmente recusei tudo isso. E é claro que isso me colocou em apuros, e me  me tornou até menos atraente para os meninos — era muito esquisita. Percebi que seria uma luta, mas não ia ser limitada por ninguém, nem por nenhum movimento. É como se, às vezes, os movimentos se incomodassem que fosse muito apegada ao meu namorado ou de que eu quisesse lavar a roupa dele, e eu dizia: “Não me preocupo com essas coisas, mas com a forma como somos tratadas”. No mundo da música, isso foi muito desafiador. Mas tomei as decisões que precisava para proteger meu trabalho e meu nome, o que muitas vezes significava menos dinheiro, notoriedade e oportunidades. Mas não me senti ressentida, e sim forte. Nem todo mundo consegue tomar as mesmas decisões ou fazer os mesmos sacrifícios que fiz. Enfrentei desafios, e fiz as coisas do meu jeito, e por isso ganhei menos dinheiro ou tive menos espaço nas rádios. Seja lá qual fosse a punição, venci e fiz do jeito que achei certo. Não fiquei pensando em coisas tipo “ah, poderia ter entrado nas paradas das mais tocadas”, “poderia ter vendido mais discos” ou “poderia ter ganhado mais dinheiro”. Acho que não fiz concessões para essas pessoas. Não mudei quem eu era, e por isso tenho um conjunto diferente de padrões. Mas em termos das lutas que as mulheres enfrentam no mundo, cada país tem suas terríveis restrições. E as mulheres têm de continuar lutando. Olhe para o meu país, pensávamos que tínhamos feito todos esses avanços nos anos setenta, e eles foram completamente destruídos. Sinto que voltamos muito no tempo. No Afeganistão, fizeram tantos avanços na educação das mulheres, para que pudessem usar sua voz e ser educadas da maneira que querem, e agora tudo retrocedeu novamente. É uma luta contínua. Não sou especialista nessas coisas, porque, como artista, sempre fui muito espontânea. Simplesmente fazia o que queria. Se quisesse cantar uma música do ponto de vista feminino — quando geralmente era do ponto de vista masculino —, não me importava. Simplesmente fazia. Não espero que todos sejam como eu, mas que as pessoas saibam que sempre me preocupo com os direitos das mulheres. Preocupo-me com os direitos de todas as meninas, preocupo-me com a forma como as pessoas são tratadas, mas ainda me considero uma humanista. E quando vejo num playground 50 meninos e meninas de todas as nacionalidades, para mim são todas crianças. Não me importo com a cor da pele, a religião, quem são os pais ou o gênero. São todas crianças, e devem ser cuidadas, educadas, alimentadas e se sentir seguras e amadas. Para mim, é assim que começo a vida. Desculpe, essa foi uma maneira bem indireta de responder à sua pergunta, mas sinto que não tenho a melhor resposta porque nunca fui e não sou a Gloria Steinem (ativista feminista americana). Politicamente, nunca fui uma verdadeira ativista feminista. Apenas tentei ser, espero, uma forte defensora ou um exemplo a seguir, à minha maneira. Espero que isso inspire outras jovens a formarem uma banda ou a quererem sair pelo mundo, a serem elas mesmas, seu próprio espelho e suas melhores críticas. E que não tenham medo de fazer coisas que possam ser consideradas convencionais. Quando me casei e tive filhos, as pessoas disseram coisas horríveis sobre mim, que traí a arte, o rock’n roll, o punk rock. Não tenho contrato nenhum com ninguém. Sou um ser humano livre, e não fui menos artista grávida de nove meses., mas sim ainda a mesma pessoa, com a mesma mentalidade, mantendo o mesmo espírito rebelde. Todo mundo tem uma maneira diferente de lutar. E tive que lutar do meu jeito.

Para você, sua geração criava artisticamente para construir e fazer algo novo, e não tendo em mente a fama e o dinheiro. Segundo você, isso estaria faltando hoje na geração das redes sociais e do streaming.

O que falta é: se você quer ser um artista ou fazer algo criativo, o que o motiva? Se o que motiva é dinheiro, poder, fama, então as pessoas vão seguir por esse caminho. Mas se você realmente sente que tem uma vocação, aí que vejo o diferencial. Nos anos sessenta e setenta, o melhor da minha geração — e acredite, detesto dizer isso, já que eu e Donald Trump somos da mesma geração, temos seis meses de diferença, o que é horrível —, era que sentíamos que tínhamos uma missão. Queríamos criar uma nova voz. Criar, como disse Jimi Hendrix, a linguagem da paz. Queríamos derrubar muros, criar, como disse Rimbaud, novas visões, novos sons. Você não ouvia Jimi Hendrix e Janis Joplin falando sobre ficarem mais ricos ou famosos. Eles falavam sobre como poderiam romper barreiras, acabar com a guerra no Vietnã, com o racismo. Talvez tivessem alguma arrogância, se vestissem como estrelas de rock’n roll, mas todos tinham a missão de fazer algo novo. Isso também foi o que aprendi com eles: querer promover mudanças, criar espaço para as pessoas, para o futuro. Quando você está basicamente tentando ficar mais rico ou mais famoso, não está criando espaço para outra geração, está apenas se confinando a um único recinto. E acho que isso é algo que as novas gerações realmente precisam se perguntar: o que elas querem? Gosto muito dessa jovem cantora, a Rosalía. De certa forma, ela é uma estrela pop, mas muito evoluída. E o que ela questiona é: por que estrela pop deveria ser algo negativo? Por que isso deveria significar que você não tem uma consciência mais elevada, que não está criando arte? Isso me dá esperança. Gostaria de sentir que até mesmo nossas jovens estrelas estão pensando em elevar o nível — o gênero em que trabalham, os discos que gravam, as letras que escrevem. Penso que as redes sociais estão aí para servir você, e não o contrário. São apenas uma ferramenta. Tenho 1,5 milhão de seguidores no Instagram, mas eles não vão me moldar. E, acredite, algumas pessoas dizem coisas terríveis. Eu simplesmente ignoro ou apago. Não vou deixar ninguém no mundo me intimidar, muito menos nas redes sociais. Precisamos ser nosso próprio espelho. E sei que já disse isso antes, mas temos que ser nossos próprios críticos, nos julgar com base em nosso próprio conjunto de valores. E não podemos permitir, por mais difícil que seja, que outras pessoas nos intimidem ou determinem quem somos. Consigo imaginar o quanto isso é difícil. Posso dizer que, quando as pessoas começaram a dizer todo tipo de coisa sobre mim — “você é antissemita”, “você não trabalha duro o suficiente”, “você não é boa o bastante”, “você só se importa com isso ou aquilo…” — pensei: o que essas pessoas querem de mim? E então percebi: no fim das contas, é sempre apenas a opinião de alguém. Uma pessoa, outra pessoa, mais outra pessoa. E não deixo que um crítico, um artigo de revista ou alguém na rua me definam. Quem me define sou eu mesma. Eu me defino pelo trabalho que faço e pela forma como me comporto como ser humano — o que certamente não é perfeito, longe disso — mas espero estar melhorando. No fim, acho que essa é a regra: as redes sociais são sua ferramenta. Elas trabalham para você. Você não trabalha para elas. Você não está aqui para servir às pessoas que comentam. Você serve ao seu trabalho. Você serve a si mesmo e às pessoas que você ama.

Você nunca se imaginou como mãe. O que a maternidade significa para você?

Nunca imaginei que seria mãe. Como disse, não achava que teria uma vida longa, e me imaginava apenas como uma espécie de artista beatnik. E, com sorte, encontraria alguém especial, o que de fato aconteceu: conheci o Fred. E pensei que viajaríamos pelo mundo criando coisas juntos. Mas ele queria ter filhos. E, graças a Deus, ele queria. Hoje, graças ao retorno da minha primeira filha (que deu para adoção em abril de 1967, quando pariu aos 20 anos), tenho três filhos. Alguém que nunca se imaginou como mãe, tem três filhos (Jesse, 38 anos, música, poeta e ativista ambiental); Jackson, 43 anois, guitarrista, e a filha que foi adiotada, de 59 anos, com identridade não revelada), e me sinto muito privilegiada por isso. Aprendi muito com eles. Mas, claro, é doloroso ter filhos. Quando eles crescem e se aproxima o dia de sua partida, você sente a dor disso. Não tenho nada de muito profundo a dizer, exceto que sou grata por meu marido ter querido filhos. E muitas vezes, quando quero lembrar dele, olho para nossos filhos, e vejo traços dele neles. E isso é algo muito bonito. É como se uma parte dele continuasse viva dentro deles. É algo que nunca havia imaginado viver, e ainda assim continuo a mesma, ainda incerta no coração, ainda meio nômade, meio solitária. Mas eles entendem isso. E, ao mesmo tempo, também sou uma pessoa responsável. Então, tento manter esse equilíbrio.

Você acredita que uma música e um poema podem ajudar a mudar as coisas.

Acho que só as pessoas podem realmente mudar as coisas. Acho que um poema, uma música como People have the power, podem inspirar muita gente. As pessoas cantam essa música durante manifestações. Estive em vários países onde as pessoas adotavam essa canção como um hino pessoal ou para uma determinada causa. Mas, no fim das contas, quem faz a mudança são as pessoas. Por vezes, perguntam: “Você não acha que os artistas têm mais responsabilidade?”. Não acredito nisso. Acredito quem tem uma plataforma deve usá-la. É importante, seja você uma estrela de cinema, do rock, um poeta ou qualquer que seja a sua influência. É bom inspirar as pessoas, usar sua voz e mostrar coragem. Mas, no final, é o número de pessoas que promove a mudança. Foi assim que Gandhi consegui mudar. Ele não o fez sozinho. Foram milhões de pessoas que abraçaram seus ensinamentos e os colocaram em prática. E foi assim que a mudança aconteceu. Sinto que a responsabilidade de cada um é tentar tornar o mundo um lugar melhor — um mundo bom. Seja bom.

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