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FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO
PARIS – Laurence des Cars alimentou vários sonhos. Jovem, viajou pelo Mediterrâneo, apaixonou-se pela civilização egípcia e cogitou aventurar-se na arqueologia. Mais tarde, aos 18 anos, fascinada pela sétima arte e com os diálogos de Alfred Hitchcock e François Truffaut como livro de cabeceira, almejou embrenhar-se pelos caminhos do cinema. Mas como estudante de História da Arte, se viu tentada à inscrição em um concurso para conservadores de museu, foi aprovada e traçou seu destino. Seu percurso é invejável: exerceu um papel crucial na instalação do Louvre Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, depois dirigiu os prestigiosos museus Orangerie e Orsay, em Paris. Hoje, aos 59 anos, desperta todos os dias às 7h para presidir o maior museu do mundo, o Louvre, um monumento histórico assentado no centro da capital francesa, com seus 360 mil metros quadrados, 36 mil obras em exposição — mais de 500 mil no acervo — e 8,7 milhões de visitantes em 2024.
NOMEADA em 2021, Laurence des Cars tornou-se a primeira mulher a comandar o Louvre desde a criação do museu, em 1793. Ela assume a simbologia, e espera que isso possa encorajar outras mulheres a não se sentirem censuradas em seus projetos de vida. “A ambição é negada às mulheres, para quem há sempre o julgamento da ilegitimidade. E isso é simplesmente insuportável. Sei que, por ser mulher, sou julgada com mais severidade. O sexismo ordinário existe em todas as profissões, e também aqui nessa casa, isso é uma certeza”, admite, ao receber a revista ELA em seu gabinete no secular museu.
LAURENCE afirma em voz alta não temer as adversidades. Não por acaso, é fã do músico britânico David Bowie, presente em sua vida desde a adolescência, e a quem assistiu múltiplas vezes nos palcos. “Gosto de pessoas que quebram barreiras, e ele derrubou muitas, em todos os sentidos. Tinha uma personalidade muito inspiradora, e nunca teve medo se questionar. Era um compositor original, um homem de abertura e de conexão, com uma cultura visual muito forte. E era um colecionador que adorava museus”, define.
PARA ELA, em Londres ou Nova York os obstáculos eram derruídos com maior facilidade. “E por que não em Paris?”, perguntava-se no final dos anos 1990. No ano 2000, em um colóquio realizado no Louvre sobre o futuro dos museus, ainda enquanto jovem e promissora conservadora, ela coescreveu um manifesto intitulado “O prazer do museu”, que foi discretamente descartado das atas do evento. “No auditório, os velhos estavam chocados: ‘Mas como você ousa dizer isso nesse templo de seriedade?’. Na verdade, ainda gero protestos, mas hoje é menos grave, porque o faço com a minha legitimidade de presidenta do Louvre. Precisamos nos confrontar com a história, com a beleza do mundo em toda a sua diversidade. Precisamos abrir esses locais e mais do que nunca compartilhar. Estou profundamente convencida disso. Se não o fizermos, nos tornaremos apenas uma atração turística, o que é o risco do Louvre hoje”, assume.
À FRENTE DO LOUVRE, ela preconiza a conciliação entre modernidade e patrimônio e o diálogo entre obras e artistas de todas as origens. Insiste na “vocação universal” do museu e reflete na criação de novos espaços, em outras formas de circulação dos visitantes e de apresentação e contextualização das obras, criando elos entre as civilizações. “Um museu que funciona bem é um museu que se envolve com questões cotidianas e sociais, não apenas com conservação” é seu mantra. Para isso, elaborou o projeto “Novo Renascimento” do Louvre, uma audaciosa remodelação do museu ao custo de cerca de € 800 milhões em um horizonte até 2031. No último dia 27, foi lançado o concurso internacional de arquitetura que definirá a cara das futuras reformas, com previsão de uma nova grande entrada para desafogar o acesso pela pirâmide e obras de paisagismo externo.
LAURENCE reconhece a condição de popstar da Mona Lisa — a icônica tela de Leonardo da Vinci capaz de provocar alvoroço no museu —, para a qual será destinado um “percurso” em uma sala especial de três mil metros quadrados. “É preciso assumir que a Gioconda tem um status excepcional, raro e único na história dos museus. É aceitar isso e construir algo inteligente e bonito, que esteja à altura dessa belíssima pintura”, justifica. Mas que ninguém espere uma revolução no ex-palácio real, abrigo de preciosidades da história da arte: “Não estou reinventando o Louvre do zero, mas tentando lhe dar um novo sopro para que possa respirar como convém nos dias de hoje, com seu sucesso inegável, e num respeito absoluto ao patrimônio e à arquitetura, pelos quais tenho uma grande paixão”, acrescenta.
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LAURENCE assume também gerir o museu como uma marca. Na comunicação, buscou influencers para atrair um novo público jovem a descobrir as exposições temporárias e coleções permanentes. Na arrecadação de recursos para suprir o orçamento anual de mais de € 250 milhões, aproveitou este ano a exposição “Louvre Couture”, sobre a moda, e a Paris Fashion Week para organizar pela primeira vez o “Grande Jantar do Louvre”, evento filantrópico que reuniu grandes grifes e convivas estrelados como Isabelle Adjani, Keira Knightley, David et Victoria Beckham e Laetitia Casta. Nesta primeira edição, o convescote de gala angariou € 1,5 milhão. Como boa anfitriã, Laurence ficou para o afterparty. “A evacuação estava prevista para às 23h30, mas se estendeu por uma hora a mais. Não teve nada a ver com o Met Gala (evento em prol do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque), como alguns insinuaram. Não tínhamos essa ambição. Mas vamos repetir, e penso que temos um potencial de crescimento”, aposta.
DE PENSAMENTO e fraseado rápido, temperado com pitadas de humor, Laurence confessa adorar seu métier, mas necessitar de uma “esfera privada”, sobre a qual é extremamente reservada. Ela possui dois celulares, um profissional e outro pessoal. “As pessoas que misturam tudo no seu telefone profissional me preocupam”, observa. Para enfrentar suas “densas” jornadas, por vezes sem hora para acabar, ela privilegia o sono e o esporte: ama dormir e pratica natação e bicicleta ergométrica — o jogging foi abandonado por uma lesão no tendão. “O esporte não é em nada incompatível com a vida intelectual”, sustenta, em resposta a colegas que maldizem sua disposição atlética.
AO ASSUMIR o cargo, repintou as paredes cinzas de seu gabinete com a cor vermelha. “Tenho bilhões de defeitos, mas profissionalmente sou uma pessoa que não tem medo”, diz em tom de íntima convicção. Para ela, o museu do amanhã não pode ser pensado como há 40 ou 50 anos. Laurence de Cars acredita no poder da arte: “A interação com obras de arte é algo que nos faz sentir bem, que nos abre. Isso não quer dizer que seja sempre fácil. Por vezes, é preciso fazer um esforço. A primeira vez que você ouve ópera, odeia. A primeira vez que ouvi David Bowie, detestei. Foi o álbum Scary Monsters, e depois escutava-o sem parar. É normal, a primeira vez nos abala. Uma grande obra de arte nos sacode”.
