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ZAHO DE SAGAZAN: “Acho que as pessoas se identificam comigo porque sou alguém bastante normal”

FOTOS: ©Fe Pinheiro

FERNANDO EICHENBERG – REVISTA ELA / O GLOBO

PARIS – À primeira vista, o nome Zaho de Sagazan sugere uma personagem de contos fantásticos, repleto de feitos mágicos e sobrenaturais em histórias cabalísticas. Mas, na realidade, nada tem a ver com a literatura fantástica, e sim com a cantora e compositora francesa que tem cativado plateias pelo mundo com sua espontaneidade cênica e voz grave de perfeita dicção — um ensinamento materno. Zaho, no entanto, contabiliza proezas dignas de uma maga de outros tempos. Aos 25 anos, coleciona os principais prêmios da música francesa com seu álbum de estreia, La symphonie des éclairs (A sinfonia dos relâmpagos), lançado em 2023. Em sua turnê mundial que já avizinha os 400 shows, públicos das mais variadas nacionalidades cantam e dançam em uníssono ao ritmo de seus hits. Em setembro, esgotaram-se em poucas horas os ingressos para as dez datas de seus concertos no Olympia, mítico palco parisiense que acolhe os grandes nomes da cena francesa e internacional. Agora em dezembro, o fenômeno Zaho de Sagazan prepara-se para conquistar o Brasil — onde nunca pisou —, derradeira etapa dessa aventura musical, com apresentações únicas no Rio, São Paulo e Recife. E suas expectativas não são menores: “Encerrar a turnê no Brasil é algo extraordinário. Muitas pessoas têm me falado sobre o público brasileiro: ‘Você vai ver, é alucinante, eles dançam e se abraçam durante o show’. Nos meus concertos, é o que procuro, conectar as pessoas, dizer ‘venham, vamos dançar, suar, rir e chorar juntos, e no final, seu vizinho desconhecido agora é seu amigo, e isso é ótimo’. É algo menos comum aqui na França. E acredito que talvez os brasileiros estejam um passo à frente nisso”, prediz em entrevista ao ELA, na véspera de mais um show na França.

Aqueles que ainda não foram apresentados ao seu trabalho autoral, é provável que já tenham ouvido sua interpretação da canção Modern Love, do britânico David Bowie. Seja na trilha do remake da telenovela Vale Tudo ou em sua performance, viralizada nas redes sociais, na abertura do Festival de Cinema de Cannes de 2024, em uma homenagem à presidenta do júri, a atriz e diretora americana Greta Gerwig. No filme Frances Ha (2012), o momento em que a personagem de Gerwig dança correndo livremente pelas ruas de Nova York ao som da música de Bowie se tornou uma cena cult. Zaho fez do seu jeito: adentrou cantando pelo corredor da imensa e lotada sala onde ocorria a cerimônia em Cannes, tirou os sapatos antes de subir ao palco, e emocionou a audiência, em uma exibição que marcou a edição do festival.

Hoje, ela desfruta dessa possibilidade de fazer o que aprecia, cercada das pessoas de que gosta, com uma simplicidade e liberdade inequívocas, sem amarras no dizer o que pensa ou viver o que sente, em todas suas contradições. A notoriedade não parece ter alterado sua essência e ambições íntimas. Uma coerência que se manifesta no lado profissional: fundou seu próprio selo musical, para manter sua independência de criação, e formou uma equipe de trabalho composta por quem chama de “melhores amigos”. Mas em sua juventude, esse caminho não parecia tão evidente.

Zaho usa a alcunha de “Pequena tempestade” para autodefinir-se em seu período adolescente, como uma alma sensível ao extremo. Chorava todo o tempo, sem razão aparente, e se irritava pelas mínimas coisas. “Mas era mais tristeza do que raiva”, esclarece. “Eu sentia uma grande tristeza. Meu maior drama era pensar que não conseguia me fazer entender. Percebia que as pessoas não me compreendiam. Eu mesma não compreendia o que estava acontecendo. Isso me frustrava muito. E a música me salvou”.

Ela começou a escrever canções. Depois, assentada ao piano, a cantá-las. E a sensação foi a de abrir uma torneira, diz. Em vez de soluçar ou gritar, cantar. “Penso que no poder das palavras e, ao mesmo tempo, do canto, de simplesmente deixar sair de dentro de nós, há essa ideia física de soltar algo, mas também mental, de explicar o que sentimos. E ao procurar as palavras, é como quando se faz terapia, você se questiona. Ao piano, me perguntava: ‘Mas o que estou sentindo?’. Quanto mais escrevia canções, mais me compreendia e vice-versa. Era muito virtuoso. É dar sentido às coisas por meio das palavras”.

Nesse processo liberatório, iniciado em 2015 pela postagem de algumas canções em seu perfil Instagram, a dança, uma marca de suas performances, também exerceu um papel importante. Ela sentia-se feia, detestava seu corpo e via-o como um inimigo. Na canção Meu corpo, desabafa: “Meu corpo/ Eu te esqueço demais/ Não te olho/ Onde deveria/ Meu corpo/ Eu examino suas bordas/ Vejo sua aparência/ Apenas seus defeitos”. Ao curar-se de uma hiperacusia, a sensibilidade exacerbada a certos sons, essa relação conflituosa começou a mudar. Ao recuperar a audição normal, conscientizou-se de quanto o corpo é fundamental. “É o nosso maior aliado”, sustenta. “Muitas vezes vemos o corpo como um quadro feito para ser admirado de fora, quando o mais importante está dentro. Comecei a considerá-lo mais como uma máquina extraordinária do que como uma pintura imperfeita. Isso me ajudou bastante depois, e se reflete muito na minha maneira de ser, no meu espetáculo em geral. Procuro suar, dançar, dar toda energia e me soltar, ser bonita não me interessa mais. Desejo que as pessoas saiam deste concerto dizendo ‘quero ser livre, ser eu mesma, ser mais gentil, ousar mais’. Não quero de forma alguma que digam ‘sou feia e quero ser mais bonita’”. Quando canta, sua emoção é amplificada, diz ela. Se está triste, a tristeza é multiplicada e acolhida. “É o meu delírio”, confessa.

Assumidamente melancólica e nostálgica, diz termos a tendência de odiar a tristeza e mandá-la embora, mas defende que quando é ouvida e abraçada que ela tem muito a oferecer: “O importante é conseguir transformá-la em algo bonito. Sou a prova humana disso, porque se não tivesse ficado triste e passado por essa ‘pequena tempestade’ interior, não estaria fazendo tudo o que faço agora e não estaria vivendo a vida que vivo. Um dos sentimentos que adoro é o consolar. E não existe consolo sem tristeza”. Já quando dança, é como se permitisse liberar-se dos sentimentos negativos: “A música tende a ir ao mais profundo da emoção. Enquanto a dança me leva para algo mais luminoso”, revela.

Zaho é conhecida por seu apreço em compor seu guarda-roupa em brechós, movida por um gesto cidadão em relação ao consumo, mas também pela originalidade. “É mais ecológico, econômico, e você tem certeza de que ninguém se vestirá como você”, diz. Ela costuma se abastecer nas estantes do Emmaüs, movimento solidário de auxílio a pessoas vítimas de exclusão social. Ao mesmo tempo, admite que Nicolas Ghesquière, diretor artístico da marca Louis Vuitton, lhe fez ver a moda de outra forma, e inclusive lhe disse que se estivesse vestida diferentemente no Festival de Cannes, sua performance não teria sido a mesma. “Nicolas me permitiu descobrir o poder de uma peça de roupa e como podemos brincar com ela. Se você está de calça, de vestido, de tênis ou de salto, não fará a mesma coisa. E as quatro opções são interessantes. Ainda não cheguei na fase do salto alto, talvez um dia. E sei que em Cannes, o fato de ter tirado os sapatos foi uma das coisas que mais marcou as pessoas. Isso mostra como podemos jogar com a vestimenta. Ao fazer isso e rodopiar com o vestido aberto, transmiti esse desejo de liberdade, de voar. Se estivesse de calças, não teria tido o mesmo efeito, tenho certeza disso”, reconhece.

Nascida em Saint-Nazaire, cidade de pouco mais de 70 mil habitantes no oeste da França, Zaho trabalhou como cuidadora em um retiro para aposentados e já quis ser enfermeira antes de se lançar na música. Ainda hoje, arruma tempo em sua repleta agenda para promover pequenos eventos em estabelecimentos para idosos. “O humano me fascina. Todas as noites, quando saio para trabalhar, penso que é incrível estar diante de tantas pessoas, tantas vidas diferentes, tantos cérebros, tantos corações. Acho isso maravilhoso. E é verdade que, além disso, tenho uma pequena obsessão pela ideia de fazer as pessoas felizes, de ajudar o outro. É por isso que também queria ser enfermeira”.

Ciente de sua atual popularidade, ela não hesita em usá-la em defesa de causas que acredita válidas. Escreveu duas cartas abertas ao presidente Emmanuel Macron, alertando para os perigos do aquecimento global e a situação da população de Gaza. Por outro lado, é consciente dos limites de um post Instagram para mudar o mundo. “Não vejo sentido em cantar apenas para me divertir, ganhar dinheiro e receber aplausos no final. Se não posso dizer que não faço apenas canções de amor, isso não me interessa. Os artistas que me marcaram são aqueles que se engajaram. Acho que isso faz parte da própria noção de arte em geral, ela é política. A ascensão do fascismo no mundo é algo que afeta a todos. Quando Taylor Swift faz uma storie e coloca um link, causa impacto. Mas não devemos nos contentar com isso”, defende.

Zaho assume seu privilégio por ser o “resultado do feminismo”, produto de toda uma geração de mulheres que lutaram por seus direitos e abriram o caminho para que ela seja o que é hoje. Criada com mais quatro irmãs por uma mãe “extraordinária” e um pai “sensível”, ela afirma não ter se questionado sobre isso. Em seu meio de amizades, a questão de gênero nunca foi um tema. “Muitas vezes me perguntam como é ser uma ‘artista mulher’. Não sei. No limite, posso entender como é ser uma artista, mas mulher… Não me ocorria que ser mulher fosse um problema”, diz. “Sou feminista porque para mim isso é uma evidência. Mulheres são verdadeiras vítimas do patriarcado e do machismo. Eu sou vítima de qualquer maneira, porque continuo sendo uma mulher nesse meio e nessa sociedade. Mas é verdade que tenho a sorte incrível de não precisar constatar com tanta frequência que sou mulher. Sonho com um mundo no qual essa questão não será colocada”.

O maior problema contemporâneo, para ela, é a “falta de amor”. Um diagnóstico que soa como um clichê, mas saindo de sua boca adota um outro tom, condizente com seu próprio jeito de ser, e também com sua leitura recente do livro Tudo sobre o amor, de bell hooks. “Acho muito bonito pensar que é preciso aprender a amar. E acredito que isso também dá muito sentido ao meu trabalho. Cada artista também está aqui para trazer um pouco de amor. Mas onde falta amor especialmente é lá em cima, nas pessoas que detém o poder, e isso se reflete na sociedade. Mas a justiça é amor. A igualdade é amor. Liberdade é amor. Elevar-se e elevar o outro ao mesmo tempo é amor. Tudo isso não passa de uma história de amor. Mas amor de tudo. Amar um riso como amar um livro, amar palavras ou o céu azul”, resume. Para ela, o crescimento atual da extrema-direita no mundo leva ao medo do outro e a um individualismo crescente: “Acho que colocar o amor no centro de tudo nos faria bem”, receita.

Ela mesmo acaba de descobrir uma outra forma de amar, e recentemente assumiu um relacionamento. Ao final de seu último show no Olympia, chamou seu companheiro ao palco para cantarem juntos Unintended, do grupo Muse, selando a apresentação com um beijo e revelando ao público sua relação, o primeiro amor de sua vida, aos 25 anos: “O amor, pelo menos para mim, me trouxe o retorno ao presente. Há o encanto de uma carícia, de apenas olhar um para o outro, de sorrir bobamente. Acho que reencontrei a lentidão na minha vida, algo que tinha perdido ultimamente nesse turbilhão de coisas maravilhosas. Acredito que a lentidão e o encantamento são muito importantes para a felicidade”.

Recentemente, Zaho criou uma versão sinfônica de seu concerto, pensado como uma opereta de sua vida em quatro atos, onde ela aparece em um estilo mais burlesco, inclusive usando uma peruca. No Brasil, será apresentada a versão original, sem orquestra e mais eletrônica. O show no Rio ocorrerá no Circo Voador, no próximo dia 9. “Quem acompanha Zaho de Sagazan sabe que ela vem conquistando público e crítica com uma intensidade rara”, diz Felipe Continentino, diretor do Queremos!, produtor do evento. “Tê-la tão perto, em um palco como o Circo Voador, é uma experiência que dificilmente se repetirá dessa forma. Para nós, é especial oferecer ao público carioca a chance de acompanhar esse encontro no início da curva ascendente de sua carreira”.

Zaho de Sagazan tem dificuldade em explicar qual a razão de seu repentino sucesso entre públicos e culturas tão diversos, mas arrisca uma resposta. Segundo ela, as palavras que mais aparecem nas mensagens e cartas que recebe são ‘autenticidade’ e ‘sensibilidade’. “Acho que as pessoas se identificam comigo porque sou alguém bastante normal. Gostam desse lado ‘ela é uma garota legal, que se sente à vontade consigo mesma, que dança como eu dançaria em uma festa, loucamente’. Não tenho um lado misterioso. Depois, certamente, há também o fato de que gostam da minha voz. Mas, de qualquer forma, acho que talvez, no mundo em que vivemos, precisamos de pessoas normais que tragam de volta a sensibilidade e essa necessidade de amor que todos nós temos. E voilà”.

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