Ícone do site Fernando Eichenberg

EXTREMA DIREITA ESTAGNA NA FRANÇA, MAS MARINE LE PEN SE MANTÉM na corrida presidencial para 2022

Marine Le Pen em reunião com o ministro do Interior, Gerald Darmanin (E), para discutir legislação contra o “separatismo islâmico”, com a qual Macron busca atrair eleitorado da direita. ©Ludovic Marin/AFP

FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO

PARIS – Se as eleições presidenciais francesas, marcadas para 2022, ocorressem hoje, se repetiria, segundo as pesquisas de opinião, o cenário do pleito de 2017: Emmanuel Macron disputaria o segundo turno com Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), com vantagem para a reeleição do atual presidente. Le Pen tentará pela terceira vez consecutiva conquistar o Palácio do Eliseu. A direita radical tem progredido a cada escrutínio nacional, mas, ao mesmo tempo, não consegue se enraizar localmente no país, com modestos resultados nos sufrágios regionais e municipais. Desde que assumiu a liderança do partido em 2011, Marine Le Pen impôs gradativamente uma estratégia de “desdiabolização”, com o objetivo pragmático de tornar seu discurso político palatável aos votos menos extremistas e ampliar seu eleitorado. Mas, apesar dos progressos verificados, ainda enfrenta dificuldades em afirmar a credibilidade de sua imagem presidencial junto àmaioria dos franceses.

O potencial eleitoral da sigla – que em 2018 abandonou o nome de Frente Nacional (FN) para romper com o passado e construir uma nova imagem – vem crescendo nos últimos anos: 6,4 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2012, 4,7 milhões nas europeias de 2014, 6 milhões nas regionais de 2015, 7,6 milhões nas presidenciais de 2017 e 5,2 milhões nas europeias de 2019. Mas a RN estanca em suas tentativas de implantação territorial, não conquistando nenhum departamento ou região, com apenas oito deputados na Assembleia Nacional e elegendo somente 14 prefeitos no pleito municipal deste ano. O partido realiza seus melhores escores nos escrutínios proporcionais de um turno, como o pleito europeu, e, na falta de alianças, fracassa sistematicamente nas eleições de dois turnos, como as municipais, incapaz de seguir o caminho de um partido tradicional na ascensão ao poder.

Para a cientista política Nonna Meyer, autora de “Estes franceses que votam Le Pen”, a conquista este ano da prefeitura de Perpignan, primeiro sucesso do RN em uma cidade de mais de 100 mil habitantes desde a vitória em Toulon, em 1995, foi um feito simbólico para o partido, mas configurou um caso único em meio a um fraco saldo eleitoral. Segundo Meyer, as dificuldades da RN em “se perenizar e profissionalizar seus quadros”, com poucos militantes e sem base organizacional, mas também a emergência de uma crise interna – com “expurgos” promovidos por Marine Le Pen de importantes membros próximos da linha mais radical de sua sobrinha, Marion Maréchal -, além dos processos judiciais em curso por problemas de financiamento e de utilização de recursos europeus, não facilitam o desempenho nas urnas.

– Hoje, não há uma dinâmica eleitoral, como a que se viu entre 2011 e 2017, período de progressos a cada eleição, e diria que a RN estagna. Ganha vozes no primeiro turno, mas, no segundo, a lógica do escrutínio majoritário a descarta – resume. É uma máquina de ganhar votos e perder eleições. Hoje, se está em uma situação de status quo, e em nenhum caso de uma dinâmica, que parece freada. Mas até 2022 muita coisa pode acontecer. Estamos em um período de grande incertza.

Nas atuais sondagens, em 2022 Macron obteria entre 23% a 26% de votos no primeiro turno, contra 24% a 27% de Marine Le Pen, e venceria no segundo turno por cerca de 58% a 42%. Em 2017, o então futuro presidente superou sua rival com um escore de 66,1% a 33,9%.

– Nas pesquisas sobre a imagem da RN, se observa que o partido progrediu, mas há algo que resiste – nota Meyer. – Uma maioria estima que este partido é um perigo para a democracia, e também que não é ainda totalmente capaz de governar a França. Uma maioria de franceses considera que Marine Le Pen não tem o estofo de um presidente da República. Ela ainda não conseguiu essa transformação, apesar de sua estratégia de “desdiabolização”.

Esforço não tem faltado da parte de Le Pen para se distanciar da imagem do pai, Jean-Marie Le Pen, um dos fundadores do partido, conhecido por seus propósitos racistas ou a defesa da tortura na Guerra da Argélia, e para quem as câmeras de gás nos campos de concentração nazistas foram “um detalhe da história da Segunda Guerra Mundial”, o que lhe valeu condenações na Justiça. Em julho, Marine Le Pen saudou a memória dos judeus deportados pela polícia francesa no trágico episódio conhecido como a Razia do Vél d’Hiv, em 1942 (em 2017, seu pai havia afirmado: “a França não é responsável pelo Vél d’Hiv”). Um mês antes, se reivindicou como herdeira política do general de Gaulle, em uma atitude que surpreendeu vinda da líder de um partido nascido do antigaullismo. O retorno da pena de morte no país, antiga demanda de seu movimento, foi substituída pela defesa da condenação à perpetuidade sem possibilidade de liberdade condicional. Também foram abandonadas citações à teoria conspiratória da Grande Substituição, segundo a qual existiria um plano para favorecer a imigração de massa para “substituir” as populações de origem na Europa. 

Para Jean-Yves Camus, diretor do Observatório das Radicalidades Políticas (ORAP), a direitização do governo Macron – de olho no eleitorado da direita moderada, hoje um pouco órfão -, com um recorrente discurso sobre questões de segurança, e o recente anúncio de um grande plano para combater o islamismo radical no país, temas caros à extrema direita, provocaram um novo desafio a Marine Le Pen.

–  A RN é um partido com décadas de diabolização, representado por todo lado como um movimento de extrema direita. Marine Le Pen é vista como um membro da direita soberanista, e tem um duplo desafio: encontrar um espaço no discurso governamental cada vez mais à direita e, por outro lado, não cair em derrapagens verbais sobre a imigração e a segurança, para não se tornar novamente tão infrequentável como seu pai. A RN vive um paradoxo: progride de forma bastante regular, mas não consegue vencer a eleição que lhe permitiria transformar seu programa em ações, ou seja, o pleito presidencial. Resta, hoje, o partido com maior índice de rejeição entre os eleitores.

Macron em Conflans-Sainte-Honorine, no dioa do atenatdo em que um professor foi decapîtado por um islamista radical. © Abdulmonam Eassa/AP/SIPA

Gilles Ivaldi, especialista em extrema direita e populismos europeus no Centro de Pesquisas Políticas da Sciences-Po (CEVIPOF), acredita que a crise econômica e social decorrente da pandemia poderá favorecer as ambições de Marine Le Pen. Segundo ele, a situação da RN na França, bem como da maioria dos partidos populistas de direita da Europa, dependerá da evolução desta crise nos próximos meses.

– Não podemos esquecer que, antes da pandemia, houve o movimento dos coletes amarelos, que revelou o quanto há na França, hoje, uma enorme defasagem entre os cidadãos e as elites. Depois, ocorreram os protestos contra a reforma das aposentadorias. Esta cólera, hoje adormecida, abafada pela crise sanitária, é uma marmita pronta a explodir. E os sentimentos que traz, de crítica das elites e de ressentimentos, são favoráveis à RN. 

Para Ivaldi, a perspectiva de um vitória de Marine Le Pen nas próximas eleições presidenciais é “pouco provável”, mas uma “hipótese que não pode ser totalmente descartada”.

– A direita moderada abandonou a ideia de uma barragem sistemática à extrema direita. Se o RN chegar à frente no primeiro turno, poderá mudar a corrrelação de forças. Temos fatores estruturais de ansiedade econômica, desemprego, precariedade, que favorecem Marine Le Pen. Resta saber qual sua capacidade de tirar vantagem eleitoral desta crise econômica e social que ainda está por vir, e até que ponto. Mas a situação política é muito complicada para fazer predições.

Sair da versão mobile