FERNANDO EICHENBERG / O GLOBO
PARIS – Auguste Rodin, considerado o pai da escultura moderna, morreu aos 77 anos em sua residência-ateliê em Meudon, nos arredores de Paris, há um século, em 17 de novembro de 1917. A efeméride é motivo de uma série de eventos promovidos ao longo deste ano na França e também no exterior. E um dos principais deles é, sem dúvida, a mostra “Rodin, a exposição do centenário”, recém-inaugurada nos nobres espaços do museu do Grand Palais, na capital francesa, e aberta à visitação até 31 de julho.
Os curadores, no entanto, procuraram evitar a óbvia e tradicional “retrospectiva”, e optaram por explorar a influência do célebre escultor na arte de seu tempo até nossos dias, principalmente pela importância da redescoberta de seus moldes de gesso, seu material predileto, a partir de 1945. Suas obras mais e menos significativas são confrontadas à criações de reputados artistas do século XX – como Giacometti, Brancusi, Picasso, Matisse, Bourdelle, Richier, De Kooning, Fontana ou Beuys – e deste início de milênio – Annette Messager, Georg Baselitz, Markus Lüpertz e Antony Gormley, entre outros. A mostra reúne cerca de 350 peças, sendo mais de 200 delas – entre esculturas, desenhos e fotografias – de autoria de Rodin.
Para Hélène Pinet, diretora de pesquisas do Museu Rodin e uma das curadoras da exposição do Grand Palais, trata-se de uma nova visão em relação à obra do artista: “Porque expomos suas criações com as de outros artistas de seu tempo, que se inspiraram nele, e com nomes contemporâneos que devem algo a Rodin. Isso renova o olhar. A demonstração de “Homem que anda” de Rodin e de Giacometti é eloquente. Ver as duas esculturas juntas é algo excepcional.
Não faltam no Grand Palais – além da já citada “O pensador” – as obras mais emblemáticas do repertório de Rodin, como “O beijo”, “A porta do Inferno”, “Os burgueses de Calais”, “O homem de nariz quebrado” ou seu polêmico “Balzac”, recusado pela Sociedade dos Homens de Letras, então presidida pelo escritor Émile Zola, que havia encomendado a escultura em homenagem ao autor da “Comédia Humana”. Sem falar de “A Idade do Bronze”, a representação de um corpo masculino nu, pela qual o escultor foi chamado de “trapaceiro” e injustamente acusado de ter moldado a obra diretamente em um modelo vivo ou mesmo em um cadáver.
“Mas um dos maiores escândalos que Rodin provocou foi pela utilização do corpo em pedaços como uma obra em si”, observa Pinet. “Ele usava mãos, braços e pés avulsos, e isso chocou enormemente na época. Chegou a ser representado na mídia por uma charge em que aparecia empurrando um carrinho de mão com braços e pernas saindo para fora, e pessoas em volta dizendo: ‘Ah, Rodin prepara uma nova exposição’. Essa utilização do corpo fragmentado anuncia tudo o que viria ao longo do século. Hoje, isso nos parece normal, mas no contexto do começo do século XX, era bem menos”.
O lado “experimentador” de Rodin é acentuado na exposição por seus desenhos, prática que precedeu sua arte de esculpir. Em 1902, sua exposição em Praga, capital da Checoslováquia, de 88 esculturas e 75 desenhos, teve uma recepção triunfal. A parte gráfica da mostra checa foi reconstituída em sua grande parte no Grand Palais, e também relacionada a artistas modernos e contemporâneos.
“Rodin desenha na folha sem tirar os olhos do modelo. Seus traços prenunciam igualmente o uso do desenho no século XX, principalmente com Matisse, que o acompanha de muito perto. Vemos isso também em seu uso da fotografia. Mostramos na exposição imagens que ele retocou de sua própria mão, e às quais ele deu um título, criando uma obra entre a fotografia e o desenho. Observamos essa prática em artistas como Brancusi, Henry Moore ou Didier Vermeiren. E mais: o seu uso do pedestal como parte da obra, algo que vemos também em Brancusi”, diz a curadora.
Não por acaso, para Pinet a obra mais simbólica da mostra é “Le couteau-baiser” (1984), de Annette Messager, uma fotografia retocada de 205 x 105cm de dimensão: “É uma obra extraordinária. Tudo está resumido ali. Nós apresentamos fotografias de pequeno formato de Rodin, e com a arte contemporânea passamos a escalas bem maiores. Annette Messager desenhou sobre uma imagem um beijo violento e de cores impressionantes. É um falso beijo de Rodin, que é bem mais doce e suave. Há o uso da fotografia, e uma abertura para o novo século. É a obra que retenho”.
Camille Claudel, assistente, musa e grande amor de sua vida, amante abandonada e consumida em sua própria loucura, não poderia estar ausente da exposição, mas aparece de forma tímida. Há seu busto de Rodin (1892) e “Clotho” (1893), e, de autoria do escultor, a vanguardista obra “Máscara de Camille Claudel e a mão esquerda de Pierre de Wissant” (1895).
À parte a grande mostra do Grand Palais, o Museu Rodin organizou uma oura parceria contemporânea com o mestre escultor, desta vez por meio de uma carta branca ao artista alemão Anselm Kiefer. No cinema, Jacques Doillon dirigiu Vincent Lindon, no papel de Rodin, e Izïa Hegelin como Camille Claudel, em um filme que entrará em cartaz em 24 de maio. “O corpo é um molde no qual se imprimem as paixões” dizia Auguste Rodin, o artista que fazia “vibrar o mármore”. O ano de 2017 promete novas vibrações para a obra do escultor.